quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Fim de Festa.

Olá meus amigos, amigas e todos aqueles que me foram seguindo por ai fora.
Em primeiro lugar, um muito obrigado a todos vocês que durante estes anos foram visitando, lendo e seguindo as aventuras e desventuras deste rapaz aqui. Agradeço todos os comentários, aqueles que aqui foram escritos e os que ficaram por escrever. Confesso que muitas foram as vezes em que esses comentários me deram mais vontade de escrever e que como tal mantiveram vivo este lugar. Esta não é, de todo, uma hora triste, esta é uma hora nova. Aquilo que este Post serve para avisar é que vou desactivar este blog. Não o vou retirar do ar, pelo que sempre terão acesso a todo o seu conteudo, ele é todo vosso. Não se preocupem que não é o fim, é só que este lugar aqui já não é bem aquilo que eu queria que fosse e como tal decidi começar noutro sítio.

O mais sincero obrigado a todos os que me leram, bem hajam!

Se quiserem continuar nas leituras de algos meus, sejam bem vindos em:

www.contosquemeconto.wordpress.com

beijinhos e abraços, até depois...

domingo, 25 de Outubro de 2009

Pensar que a poesia se foi!

A poesia foi-se embora, deixou-me aqui sozinho com um conjunto de caracteres que não conseguem exprimir o que eu sinto ainda tão fortemente no meu interior.
É, sabem aquele grande amor? Aquele que só se encontra uma vez na vida? Eu perdi-o. O pior é que não sei sequer por onde começar a procura-lo, parece que com ele desapareceu muito de mim, estou despido de ser!
A poesia foi-se embora e deixou-me aqui sozinho, embrutecido por fora, mas o mais doce e sensível possível por dentro. Já não sei para onde olhar, o que ouvir ou fazer, já não sei nada, a poesia foi-se embora e parece ter levado tudo com ela nas mudanças.
Já não sou o mesmo sem poesia, estou tão pobre, nem o riso me sai cantado, nem a alegria me sai espontânea, só me saem estas palavras, que pobres, jamais enriquecerão aquilo que persisto em enaltecer.
Já nem sei bem no que pensar, nem os sonhos me saem leves do corpo! O meu corpo tem uma gravidade que é o quadruplo do que seria, se pelo menos uns versos, a poesia me tivesse deixado.
E estou triste, sim, bem triste, não tenho poesia e sem isso não consigo conversar comigo por forma a perceber melhor onde estou. Perdido, confesso que estou perdido, não é que me sinta perdido, porque até a isso a poesia e a sua ausência me vedou acesso, já não sinto nada, sem poesia não consigo sentir!
Ás vezes ponho-me a pensar se a poesia ainda está em mim, escondida num lugar qualquer que num dia estranho vou encontrar e passar horas e horas a divertir-me com ela. Pode ser que sim, pode ser que ela ainda esteja comigo, pode ser que no dia em que eu não pensar na sua fuga, ela me ressurja em sonho e eu me alegre, até lá, resta-me viver os dias em prosa, sem graça e simplesmente!
Outras vezes penso que a maltratei e como tal ela desistiu de mim para sempre, deixando-me aqui neste lugar estranho onde nada rima, onde nada nunca mais versa!
Mas depois tem aqueles dias, onde me forço a rimar, onde mesmo sem poesia tento o verso e o inverso. Tolero os dias um pouco mais quando estou assim, parece que as coisas me vêm de uma forma mais branda e como tal eu canto um pouco.
Mas tenho tantas saudades, tantas como nunca tive saudades de nada, saudades daquela poesia que me pintava os dias e me deixava inebriado, quase bêbado de cores e rimas e versos e palavras bonitas que pareciam rugir de tudo o que era som meu!
Mas para vos ser franco, trocava num piscar de olhos toda a poesia do mundo pelo amor daquela que ainda amo, trocava toda a poesia por um só segundo de abraço sentido e carinho partilhado, trocava o mundo por um beijo sentido, trocava tudo por uma só trova de amor daquela que amo ainda!
Mas o mundo não funciona como queremos, o mundo tem a sua própria ordem e os seus próprios afazeres, por isso o melhor que temos a fazer é procurar a poesia nas palavras mais simples, naqueles verbos estranhos e principalmente naquelas memorias indescritíveis que não conseguimos esquecer nunca, por mais que tentemos viver melhor e mais felizes!
Amo-a ainda, mas já não tenho poesia para o descrever!

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Isto

Não sou filho bem disso, nem daquilo. Não penso muito nisto ou naquilo. Sou inquilino disto aqui, sem saber muito bem a que me refiro. Ao fumar este cigarro esguio, feito com as minhas próprias mãos, percebo que ele tem mais vida do que este corpo que o circunscreve numa frase. Ele tem uma muito maior chama do que quem o clama, ele vive bem mais no seu curto ímpeto do que eu neste longo arfar de dias e noites que se sucedem sem que algo surja!
Não sou filho de nada, sou angustia e desassossego, nem escrever sei bem, ou falar eu sei, sou nada e de nada pouco sou! Pais não tenho que conheça, pois seres que se prezem não produzem algo assim, não sou filho não! Nem perfilhado, nem adoptado, nem esquecido, não sou nada! Nem memoria me dou ao luxo de ser, pois para eu ser memoria, tenho de ter alguém que me recorde e nem para esse trabalho encontro operário que me sirva.
Não sou filho, ou ser, ou aborto, nem aborto, vejam só! Nem aborto sou, ou restolho, não sou nada! E pensando bem naquilo que digo, esse nada que me digo ser, não o chego a ser por falta de força, ou de vontade, ou por força de vontade! Não sou nada e esse nada, nada se limita a ser.
Mas parem já! Não é lamuria, não, não é lamuria não! Não o é! É expressar! É constatação! É consciência! Este nada, consciente é de que o é, nada, isto é! Este nada, sabe ser-se no nada, este nada é assim porque é assim. Nem tudo se explica, ou se sabe, nada, a nada sabe e sabe disso! Não sou filho, não, filho não sou.
Mas estou bem, estou bem sendo nada, nada sendo, como quiserem, o gerúndio dá sempre aquele laivo de inacção, aquela sensação de nada se fazer mas de tudo se ir fazendo…
Mas parem, por favor, de me ler parem já! Nem isso mereço, nem para isso tenho crédito!
O cigarro já morreu, viveu e logo morreu! Eu matei-o! Na minha vida eu matei-o, para a minha vida eu matei-o! E foi assim que ele viveu, a morrer em cada segundo, cada segundo mais perto do fim, cada segundo mais na minha vida e cada segundo também mais na sua morte! É, ele morreu e eu morro a cada passo também, alguém, algo me consome como eu a ele e por isso morro a cada instante, sem pensar nisso, sem considerar isso… a cada segundo morro eu e ninguém se preocupa com isso! Talvez seja por não ser filho de ninguém que morro tão rápida e obstinadamente, talvez por não ser filho de ninguém é que me esvaio apressadamente, talvez por ser filho de ninguém é que me queimo e mais e mais e mais, até não haver um “e” depois do mais!

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

E de repente o amor!

O corpo, meio dolorido e ainda imerso numa imensa solidão, que tem tanto de bela como de disforme, encontra-se faminto.
Levanta-se, abre os sentidos ao tempo e começa a emergir. O sol desperta os poros, os poros os órgãos internos e é nesse repente louco que surge algo.
Os olhos levitam nas orbitas, não param na sua dança irreverente em busca de um alvo. O dia despertou claro, não existe, nem para um pouco de charme iluminista, uma nuvem pedante que por ali circule.
O corpo, escusado será dizer-se, é o meu corpo. É nele que eu sinto, que eu vejo, que eu vivo este mundo. Digo que vivo este mundo porque não tenho qualquer outra opção, não nos é oferecida qualquer outra opção. Para a vida temos somente isto, este sol, esta terra escura sob qual deambulamos, este ar espesso que por vezes é inexorável e nos dificulta o respirar.
Apesar das cartas do jogo serem sempre as mesmas, o mesmo “jogo viciado” como costumamos dizer para nos desculpabilizar-mos, temos inúmeras formas de jogar, de apostar e, se o caso for esse, formas das mais mirabolantes de ludibriar o jogo convencionado.
Assim sendo, vamos acordando, vivendo e deitando, sonhando e morrendo.
O corpo, esse, está sempre faminto, ou quer comida, ou aventura, ou sossego, ou paz, muitas são as vezes em que ele se subjuga e pede somente o mais simples, a tão merecida paz! Mas mesmo a paz não lhe basta, não o preenche o bastante, é necessária a fúria, a luxúria, a perfídia. O pecado (se eu me acreditasse em pecado) é muitas vezes ingerido pelo corpo, por este ter necessidade daquilo que não é permitido, no entanto (e é por isso que eu não acredito no pecado) mesmo isso que não é permitido o sacia, isso não lhe basta, o corpo pede mais e mais, até que no momento em que ele se sacia ele pede só uma e uma coisa, a morte! Aliás, para sermos francos, a única coisa que o corpo não pede, é a morte! A morte, o corpo exige-a!
E assim vamos sobrevivendo, sempre oferecendo novos alimentos ao corpo, para que ele não se lembre de exigir aquilo que é dele por direito, a tão inexorável morte!
Nesse repasto gigante que é a vida, vamos servindo as mais maravilhosas ceias, polvilhadas de requintados e excitantes sabores.
Vamo-nos deleitando com as entradas, aqueles momentos em que olhamos os nossos pais e não conseguimos senão encara-los como super-heróis, como Deuses, a bem dizer, os pais são os nossos guias espirituais durante uma imensa parte das nossas vidas, se tivermos em conta que o que demora um ano na infância, mais parecem décadas aos olhos da idade adulta. Prosseguimos então por essas maravilhosas entradas, vamos tendo um gostinho do que são as primeiras amizades, quando um amigo é realmente um amigo e por ele não conseguimos senão dar a nossa própria vida se alguém tentar intrometer-se na vida dele, aquele verdadeiro amigo a quem daríamos a ultima chiclete, sim, essa mesmo, essa que guardamos a manhã inteira de aulas para depois podermos ir até casa ao final das aulas sempre a mascar e a fazer balões! Isso sim são as amizades da nossa vida! Ainda nessas entradas, vamos tendo coisas que por vezes nos azedam o apetite, a primeira grande desilusão, quando o percebemos que o pai natal não percebeu bem aquilo que queríamos e durante dias ficamos com aquele aperto no estômago de nos faltar algo e parecer que não existe vida, se não tivermos aquela bicicleta com que sonhamos nos meses que antecederam o natal, sim, porque nessa altura, uma semana são longos meses!
Depois das entradas chega-nos o prato de peixe, sei que é um pouco estranho, mas o prato de peixe é aquele que mais nos pesa, aquele que mais nos marca, chegam-nos as primeiras grandes dúvidas nessa altura;
- Será que ela\e reparou na espinha enorme que tenho na testa?
- Será que ela\e fala sobre mim quando está com a\o melhor amiga\o?
- Qual será o momento certo para eu ir ter com ela\e e dizer-lhe que gostei muito da forma como ela\e gozou com a professora na aula e que foi muito fixe ela ter dito aquilo, e mais fixe ainda quando ela\e saiu da sala e bem antes disso mesmo fez aquele olhar de má\mau e bateu com a porta e… e… dizer-lhe que ela\e é mesmo linda\o e que eu não consigo tira-la\o da cabeça!
E nessa altura tudo nos parece vibrante e o que é mau é mesmo mau e o que é bom nunca é bom o suficiente e na minha opinião os pratos de peixe são mesmo isso e essa é a minha opinião e eu nunca vou mudar e vou ser sempre assim!
Mesmo com tudo isso, esses altos, esses baixos, não são nunca o suficientes e por isso ele permanece esfaimado, completamente sedento e esfomeado! É mais ou menos nessa altura que algo acontece, algo de realmente profundo, chega o prato principal, a carne!
E de repente tudo muda, o prato, os talheres, o vinho, tudo se torna diferente! A carne acaba sempre, mas sempre, por ser um prato requintado, por mais rudimentar que seja a apresentação, por mais básico que seja a preparação ou o acompanhamento, é sempre algo que requer o nosso mais apurado paladar, temos de ter bom gosto nessa altura, temos de ter um estômago á altura também! No prato principal é quando provamos as coisas mais importantes, temos o primeiro olhar para os nossos pais como pessoas “normais”, que também eles têm dúvidas, que também eles falham e muito, deve dizer-se que falham tanto, que até se assemelham connosco, que também eles deambulam por aí, em busca das respostas. É impressionante como eles, mesmo sendo mais velhos ainda erram, e tanto! Acaba por nos reedificar esse momento, nesse momento em que percebemos que não existem super-heróis, quando nada é tão preto ou tão branco! Temos o momento em que tudo o que de nós existe se esgota, somos deparados com o pior do mundo, a primeira traição, o primeiro amigo que fica para trás, aquela mulher\homem que amamos como se só ela\e existisse e ele nos parte o coração, não contente com isso, volta para trás e esmigalha-o, torna a voltar e queima-o, regressa e varre as cinzas que dele restaram e arruma num saco que lança numa lixeira! Mas nem tudo é mau, em metáfora culinária, é somente aquele bife com muito nervo que após delicados cortes e refinado temperar se transforma num apetitosíssimo festim! Descobrimos as verdadeiras amizades, ficamos a saber que não existe maior amor do que o amor próprio e acima de tudo, ficamos a saber que existem pessoas para as quais somos muito importantes e que temos personalidades em torno de nós que confiam nas nossas capacidades e que nos impelem a chegar mais e mais longe!
Percebemos então, que somos mais que apenas um, somos um todo e isso é extraordinário no prato de carne, isso satisfaz-nos de sobremaneira.
Eis que chega a melhor parte, a sobremesa, pena que seja sempre servida em pequenas porções! Mesmo assim, a frescura de uma peça de fruta, a pureza das coisas simples, ou o charme de algo mais elaborado, como uma mousse de chocolate que tem o exacto sabor daquela que a nossa mãe nos fazia nos tempos de Super-Mulher. Então não pedimos mais nada, não precisamos de mais nada, relativizamos imenso as coisas, aquilo que parecia ter tanta relevância ainda à uns dias atrás, pois agora os anos passam ao sabor de dias, deixa de ter tanta importância, ficamos mais satisfeitos com coisas básicas, aquele abraço, aquele dia á noite em que adormecemos a ver algo insignificante, mas que de algum modo nos remeteu a outros dias e por isso nos alegrou como nunca nada antes tinha alegrado. Por incrível que pareça, nem mesmo aqueles momentos mais tristes e principalmente nostálgicos nos afectam tanto como deveriam, o estômago está bem forrado e a sobremesa apenas deixa um sabor mais doce na boca, não faz muita diferença no corpo, porque ele, mais do que nunca encontra-se saciado, está cheio de sabores e gostos e memórias e aromas que têm tanto de indecifráveis aos outros como de inacreditáveis para o nosso próprio palato ou olfacto. Na sobremesa aprendemos, finalmente, a esquecer e isso é o mais importante, não podemos estar constantemente a ruminar naquilo que foi ou deixou de ser, não tem jeito, temos mesmo de digerir tudo, as entradas, o peixe, a carne, temos somente de apreciar, degustar!
Eis que chega o final da ceia, o corpo, outrora faminto, pede mais, mas pede algo diferente desta vez, algo de que não precisaria se ele fosse para casa descansar em paz depois de tal repasto. O corpo, nessa ceia imensa que é a vida, pede-nos algo que o mantenha desperto, se não for para apreciar a refeição, que seja só para não estar sozinho, pois escusado será dizer-se que uma ceia destas não se faz sozinha, temos de acompanhar esta ceia com amigos, amores, família q.b.! Então, o nosso corpo pede o café, aquele pedido estranho que não é bom, pois, como diz um amigo meu, “algo que é seco, triturado ao ponto de se transformar em pó, fervido em água e que no final disso tudo ainda tem de ser misturado com açúcar para ser minimamente tragável”, não pode ser bom! Mesmo assim, tomamos o café, na esperança que possamos apreciar mais um pouco de tudo aquilo que nos fez estar tão activos durante tanto tempo, que agora nos parece não ter sido tempo suficiente, nunca nos parece tempo suficiente.
Por isso mesmo, o corpo, agora saciado, mas com uma nova fome, uma fome de tempo, de sempre mais e mais tempo, retira-se, o corpo esvai-se, larga a sua forma temporal e palpável e viaja para outro qualquer lugar, um lugar onde a ceia é interminável, onde jamais é necessário café para continuar, onde podemos comer só uma sopa, ou só sobremesas, ou só doces, não existe regra, não é mais um jogo, não é mais nada, é só algo!
Por tudo isso, o corpo despede-se das cartas que tem na mão, abandona o jogo e troca as fichas no balcão, parte para novos desafios. Lança-se agora na intemporalidade e por isso mesmo, os que o acompanharam devem sentir-se felizes, só pelo simples facto de saber que agora esse corpo está noutra, já não quer cá saber de entradas ou calamares com massa fresca polvilhados de coentros! Esse corpo está lá,” lá longe”, como dizia um dos meus melhores e mais sábios amigos!
Pena é que existam uns certos indivíduos cujo paladar é tão selecto que cedo demais abandonam o jogo, não nos permitindo tomar aquele café longo com o digestivo e o cigarro, aquele café sossegado após a tão afamada refeição, onde podemos colocar as notícias em dia, partilhar um pouco um do outro somente por um pouco mais de tempo.
No final é sempre isso, é sempre o tempo que mais esfaimado que o corpo vai-se regozijando com os mais belos petiscos levando-os para a companhia dele quando ele mais bem entende, só porque ele, o tempo, é o senhor de tudo, tudo o que foi, que é, ou será, pois passado, presente ou futuro, o tempo está, estará e esteve sempre lá!

Em homenagem a um excelente Gourmet, Jorge Vasques, que tal como o tempo, esteve, está e sempre estará connosco!


domingo, 13 de Setembro de 2009

Foi o que foi!

Sem manifestos. Sem outros interesses que não os do costume, sem nada. No final das contas, sem ninguém. Olhar, nada ver, nada sentir, só olhar por olhar. Rever o que se olhou e não se sentiu, rever e sentir que pouco interessa o que se olhou, ou porque se olhou, ou sequer que se tenha olhado! No final das contas não se viu nada, não se sentiu nada! Fixar os olhos no vazio e sentir que pouco desse vazio se explorou, sentir que pouco se fez, que pouco se disse! Olhar o vazio e sentirmo-nos cegos! Pensar que se calhar pouco importa a condição de vazio, que se calhar pouco importa qualquer das condições em que nos coloquemos, pouco importa o importarmo-nos! Vaguear um pouco, lançar um pé para a frente do outro, só lançar o pé, não se pode, propriamente, chamar a isso caminhar, é só um lançar de pés que nos lança para outro lugar que não o actual, se bem que esse próximo lugar pode ser igualmente vazio. Mas relaxar nesse jogo, brincar a isso, ser um pouco criança nesse acto, ficar assim, a sentir algo que não nos toca, que sequer mexe connosco, sequer sentimos! E lembrar de tudo, ir pelo tempo fora, dentro de nós mesmos e lembrar de tudo, daquele tudo que agora é tão distante, tão distante que nos torna agora insensível àquilo que foi, àquilo que será nunca mais.

Pequeno aparte politico.

Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador
do DF, ex-ministro da educação e atual senador CRISTÓVAM BUARQUE, foi
questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia.
O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a
resposta de um Humanista e não de um brasileiro.
Esta foi a resposta do Sr. Cristóvam Buarque:
De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a
internacionalização da Amazônia.
Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse
patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a
Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo
o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada,
internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.
O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a
Amazônia para o nosso futuro.
Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar
ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser
internacionalizado.
Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode
ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.
Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas
decisões arbitrárias dos especuladores globais.
Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar
países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de
todos os grandes museus do mundo.
O Louvre não deve pertencer apenas à França.
Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo
gênio humano.
Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural
Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou
de um país.
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um
quadro de um grande mestre.
Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do
Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por
constrangimentos na fronteira dos EUA.
Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser
internacionalizada.
Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade.
Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília,
Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria
pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la
nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares
dos EUA.
Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas,
provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as
lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em
troca da dívida.
Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo
tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando
o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo
inteiro.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.
Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a
Amazônia seja nossa.
Só nossa!.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Carga Rápida.

Um algo, um, apenas algo.
Os passos descem a avenida e cruzam esquinas.
Mais uns passos adiante e a pausa merecida.
Compram-se aromas, vendem-se sorrisos e oferece-se um bom dia.
O passo é já mais seguro, desce a avenida com a certeza de um pé em frente ao outro.
Nada de passos em falso, nada de percalços ou tropelias.
Como estes pés caminham, ou melhor, como estes pés caminharam já.

Fim

Vais deixar-me assim? Sem brilho, na caserna do desassossego a lidar com o final do brilho de mim mesmo? Com o final do brilho de tudo o que existe? Sonho só, meu mal é que sonho só! Fico aqui, horas, fechado no meu covil e sonho só, não como se apenas sonhasse, não é disso que se trata, trata-se de que sonho só, sozinho, sem ninguém do meu lado que comigo sonhe, que pelo menos me veja a sonhar e me acompanhe nesta leviandade mórbida que é sonhar-se o inatingível, que é sonhar-se o insondável, o impossível, o nada! Deixas-me aqui a sonhar o nada sozinho e isso tira-me tudo o que tenho. Não tenho força para escrever cores, não tenho resistência para descrever músicas, fico-me aqui, na descrição e queixume de nadas que são isso mesmo, absurdos nadas sem conteúdo, sem ponta de sonho ou significado, nadas apenas, uns atrelados aos outros rumando a um lago de apenas vácuo. Obrigado, dás-me a solidão e por surpresa, de ti retiro senão nada!

No Oceano mais profundo!

Preso no chão. Pés atados no cimento e movimentos muito amplos de braços e até mesmo da cabeça. Gira, gira mais e mais, gira ao ponto de se sentir tonto e por consequência sentindo a leveza da cabeça ás voltas. Liberta-se de tanto girar sobre si mesmo. O cérebro abre-se, milhares de cores saltam, a luz ofusca quem narra, a luz ofusca as letras marcadas no chão, a luz cega! O cimento não aguenta, pouco e pouco vai criando pequenas rachas, maiores rasgos, enormes fendas, quebra, note-se, o cimento quebra. Um pé solta-se e prende-se bem fixo ao chão. Auxiliando no equilíbrio, uma mão ajeita-se para auxiliar o pé que ainda se mantém cativo do cimento. Um pouco de destreza, um pouco de maleabilidade, um pouco de sonho e luz, luz mais ofuscante ainda! O outro pé solta-se, ambos os pés soltos, chega-se á altura de dar um passo qualquer. Tudo brilha, tudo é tão branco que um passo para qualquer lado é um passo para lugar algum. É indecifrável onde se vai pisar. Os pés estão cegos, o corpo está cego, as mãos estão cegas, a luz, essa cega intensamente! De olhos bem abertos, observando a profundidade do branco, solta-se a perna e roda-se novamente, uma e outra vez mais, ainda um pouco mais, gira-se sobre si mesmo e outra e outra e outra vez. Novamente a tontura, novamente tudo, tudo igual, menos a queda! Caído no chão o corpo ganha vida, tudo o que é partícula sente, tudo o que é pele se sensibiliza, tudo o que é tacto é visão! O corpo estende-se na superfície ainda branca, é indiferente os olhos estarem abertos ou cerrados, tudo isso é indiferente, é outro tipo de aurora, é outro tipo de despertar. O corpo no chão, vazio de tudo, no chão claro como a palavra claro, branco como branco…
Ouve-se ao fundo alguma coisa, escuta-se algo além de branco!

Das Estórias de Rodrigo.

Entrei no mundo e disseram-me assim:

- Vai, corre, corre o mais que puderes, faz o mais que puderes, tudo tenta, experimenta, tudo ridiculariza e engrandece! Não te esqueças apenas que o tempo nada esquece e que mais tarde, ou mais cedo, tudo dependendo dele, as contas a ser devidas terão de ser saldadas e bom que nesse tempo, tenhas já amealhado o suficiente, para que pagues o que o tempo te dá agora sem nada cobrar. Confia-me, mais tarde ou mais cedo, consoante a sua vontade, a cobrança chegará. Acautela-te, não gastes nunca tudo e não poupes nunca demais, mede-te e assim serás medido, compreende-te e assim serás sabido. Faz de tudo o que quiseres, mais tarde, ou mais cedo, conforme o seu desejo, tudo te será cobrado. Guarda as melhores moedas para o fim, pois ele chegará, asseguro-te, ele chegará, até hoje sempre chegou na hora certa, pontual que é o tempo!

Abandonando o Berço.

Espero-me no acalmar da bravia sede e fome que investem sobre mim rasgos de melancolia. Submirjo por entre os abismos da minha própria cólera e fico perplexo com aquilo que tenho ainda a aprender. O caminho apresenta-se tão extenso, tão longínquo e esguio que os meus pés me doem já, mesmo antes de sair da cama. As vontades carnais que me consomem, o desejo, a pura e inapta vontade de consumir alimentam-se de mim e deixa-me assim, como estou agora mesmo, um esqueleto, desprovido de carnes e músculos e sangue e veias, só osso, branco, duro e recto!
Abro uma das mãos em ossada e olhando-a, preencho todo aquele vazio de real com imaginação, imagino as minhas veias, a minha carne e o meu músculo, imagino a minha pele, a camada que me protege de adversidades mundanas e desviantes. Imagino aquela camada de corpo pensante que criei, imagino-a e num ápice só, ela realiza-se, inundando o mundo da minha verdade e virtude. Eu sou, nada mais, nada menos do que aquilo que me imagino, única carga que não controlo, ou escolho, são estes ossos, que já aqui estavam antes de mim e que depois de mim ficarão para outro que os queira revestir com a sua carne. Ah! Meu corpo, Ai! Revida para com a vida, dá-lhe luta! Ah, despoleta em ti mesmo o senso de existência e permanece calmo quando o azulado se entreponha entre ti e o mundo; e preenche-te de cólera quando tudo estiver calmo! Reserva-te com antagonismos, vive entre os abismos e como tal, transforma-te, ganha outras formas e para que a queda não te atemorize, imagina-te ave, ou felino, ou folha caída de árvore, bem lá do alto, mas numa queda paciente, coerente e sábia.
Esquece o desprovido corpo em que te imaginaram, esse era só um embuste, coberto de falhas, envolto em miudezas que não te permitiam ser quem queres ser, que te recusavam o acto de agir, mesmo antes de pensares faze-lo. Ai! Sofre, sofre imenso, dedica-te ao sofrimento ao ponto de o sofrimento ser nada mais que uma palavra. Coloca ambos pés no chão, finca-os com leveza mas acompanhado de sagacidade no solo e assim sendo, caminha! Não deixes que tua cabeça, comandante de tudo isto, bem lá do topo se deixe toldar pelas alturas e pela vertigem se sinta ludibriada e com vontade de subir mais alto ela por si só, obriga-a a ficar-se bem chegada do corpo, subindo com os pés e com o restante conjunto ás alturas que almeja, só assim te serás pleno, tal como te imaginas! E imagina-te, nem por um momento te dediques ao acto de te adorares, imagina-te só, imagina-te sempre mais e melhor, quanto mais te imaginares, mais terás de te realizar, mais terás a conseguir, a executar! Executa, ah! Executa como poucos conseguem e muitos tentam, mas por favor faz-te! Por favor, só não te faças homem, não te transformes numa palavra, não te transformes num sonho! Isso seria o meu maior pesadelo, que a fim de tudo fosses só um sonho, só um homem! Transforma-te ao ponto de deixares de saber o que és e por tal teres de te procurar insistentemente, só assim te encontrarás mais! Como no sexo, lugar de imaginação, onde tudo se repete e sempre mais fundo e mais forte e mais rápido e quente e húmido e pérfido, repete-te tu também, ao ponto da petiz mort! Nessa morte, nesse momento de vácuo, aprecia a calma, o egoísmo dessa calma e o desassossego de se permanecer somente aí, onde nada se imagina e tudo é real! O prazer é real, o cansaço é real, a loucura é real, tudo é real e ao mesmo tempo, fruto da tua imaginação! Ai! Transpira desse teu corpo toda a calma, transparece dessas tuas veias o nervosismo e imagina-te imperfeito, imaturo e ruminado, cuspido pela vaca que te pariu novamente, imagina-te de novo no berço e com todo o caminho de fronte a ti uma vez mais! Nesse momento, no momento em que tudo se afigura como uma repetição dura, rude, assustadora e exasperante, imagina um sorriso no rosto, um rubor nas faces e acima de tudo, imagina que tens vontade de repetir tudo de novo, imaginar tudo do zero uma vez mais! Aí ri-te, do tempo, do corpo e dos ossos, especialmente ri-te dos ossos, que se mantêm rectos, brancos e duros, ri-te deles, pois é de mau trato que te rias da pele negra, essa pele que agora envergas, pisada pela queda do segundo parto. Ri-te do mundo, de tudo a que à tua volta se encontra, faz-me o favor e ri-te só, não me questiones, quando te rires vais ver o proveito de te teres imaginado como querias e de mesmo assim seres forçado a reconhecer que não te imaginaste ainda o suficiente e que por isso é que tens de tentar novamente e possivelmente uma vez mais ainda, tantas até deixares de achar graça a esse lugar que é o fosso, o fim.

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Tempo em contratempo como alimento.

Ruminar. Mastigar-se o tempo com vontade, quebrar-lhe os nervos, apreciar o seu gosto. Passar o tempo, passar o tempo com gosto, gostar de se passar o tempo. Mastigar aquele tempo, aqueloutro também, juntar-lhes os sabores e misturar-lhes as carnes. Cravar bem fundo os dentes no tempo e dividi-lo em parcelas. Parcelas grandes, parcelas enormes que trinchamos em outras mais pequenas e outras diminutas e em outras ínfimas! Deglutir o tempo e deixar que tudo se misture. Amassar-lhe as partes, tirar-lhe os vincos e fazer uso dele! Deglutir o tempo e apreciar a sua redução a pequenos pedaços, menores ainda que os iniciais, menores ainda do que os primordiais, tão menores que se não distingam uns dos outros, tão pequenos que só reste o liquido e o sólido, tão pequeno que só existam partes para deixar no lixo, tudo tão diminuto que nos restam apenas os pequenos pedaços que ficaram na boca e nos incomodam por estarem presos nos dentes, que nos incomodam por nos darem a sensação de termos tempo de mais para estarmos até preocupados com os nossos dentes. Tudo tão pequeno que já tudo tenha muito pouco sentido e nos apercebamos que temos mais tempo para ruminar, mais tempo ainda para mastigar com vontade, para apreciar o gosto, dividir e seccionar e depois deglutir! Tudo tão pequeno ao ponto de parecer ridículo este passar de tempo onde apenas se rumina, tão ridículo ao ponto de se dar o salto para o deglutir apenas, tudo tão ridículo que quase se morra de fome por se não ter tempo de se poder apreciar o tempo degustando-o!

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Marco de Correio

Sou um velho sentado do lado de um marco do correio. O mais importante não é que eu seja velho, o mais importante é que estou mesmo aqui, do lado do correio, mesmo ao lado deste amigo vermelho, deste marco de atenções, de noticias, este marco do mundo e ninguém me vê!
Sou um velho ao lado de um marco dos correiros e estou aqui, somente sentado, somente a passar o tempo, já que sinto que a maior parte dele, para mim, já passou, agora só estou a passar o tempo até que me acabe o tempo.
Houve um tempo em que eu temia o tempo, tentava sempre correr á frente dele, sempre precavendo tudo, cuidando de tudo para que quando chegasse aqui, a este exacto momento, não tivesse de me servir da companhia de um marco de correio.
Mas olhem, aqui estou! Aqui do lado do meu grande amigo, o marco de correio! Olho para trás, olho muito para trás, olha para como as coisas eram no meu tempo, lá longe, onde o meu tempo me valia de alguma coisa! Agora só sinto isto, sinto isto de sentir que pouco ou nada me vale passar este momento no tempo.
Sou só um velho aqui, parado no tempo ao lado do meu companheiro marco do correio.
Vezes há em que o senhor dos correios me lança um bom dia com o aceno da cabeça, respondo-lhe de volta, mas eu acho que ele está tão ocupado a gastar o tempo dele que nem quer saber daquilo que eu lhe podia poupar de tempo em conselhos, por isso deixo-me ficar assim, calado no tempo, calado comigo, quieto, como que a tentar mostrar que nem me importo com este virar constante do mundo.
No final das contas sou só um velho ao lado de um qualquer marco de correio, com o passar do tempo penso que até perdi a noção do tempo, olho para trás e não sei sequer a minha idade! Pensando bem nisso não tive nunca bem noção da minha idade, só me lembrava dela quando me era apontada, estava tão pregado a prestar atenção á forma como se vivia no meu tempo que me esqueci de que sou eu que vivo num determinado tempo.
Olho hoje para trás e reconheço que a minha maior revolução não foi sequer a de Abril, essa serviu só aqueles que souberam aproveitar-se do tempo, tomando partido da vantagem do dinheiro poupar tempo, do dinheiro poupar tudo! A minha maior revolução foi um dia em que me recusei a ir comprar o pão para o almoço de domingo, disse que não à minha mulher e essa foi a última palavra! Nunca mais me esqueço que desde esse dia até hoje não consigo deixar de comprar pão bem cedo ao domingo de manha, mesmo vivendo eu já sozinho, mesmo tendo terminado o tempo da minha esposa e mesmo não tendo os meus filhos comigo, por eles se dedicarem a ocupar o tempo com as coisas deles.
Sou um velho, sozinho, sentado ao lado de um marco de correios e só tenho pena de não ter passado mais tempo com os meus filhos, para que agora, quando eu não tenho mais nada para fazer com o meu tempo, ao menos tivéssemos interesses em comum e conversas que nos deixassem contentes, pelo menos por um breve período de tempo, antes de eles terem de voltar para a azafama de constituir a própria vida antes de eu ter de me deixar cair no tempo, tropeçar no tempo…
Sou somente um velho, irrelevante se estou frente ao marco do correio ou á porta da missa, sinto-me sozinho e essa solidão nem uma eternidade de tempo cura, pois eu sinto-me sem tempo para aproveitar agora a juventude que desperdicei.
Sou velho e queria ser novo e com rubor no rosto, um rubor igual aquele do marco do correio. Se eu fosse novo, ai se eu fosse novo, com a experiência que tenho hoje, não me faltariam maneiras de passar bem o meu tempo!
Mas sou feliz, ouviram bem? Este velho aqui é feliz! Eu vivi um tempo só meu, só eu sei o que o meu tempo me deu e por mais que o queira partilhar, vocês jamais teriam tempo para ouvir um velho como eu!

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Cerebral!

Deliciam-se os ossos do sabor da carne! Envoltos por ela sentem-se protegidos. O sangue flui harmoniosamente, nada nem ninguém o detém! De ponta a ponta, de lés a lés, desse corpo ele flui, freneticamente e num modo que nos faz questionar se ele é mais necessário num qualquer outro lugar.
Os pulmões absorvem do mundo aquilo que é deles por direito, o ar! Sorvem-no com candura, como que tirando, colher a colher, cada partícula de ar que necessitam! Eles expandem-se, obrigam todos os outros órgãos a encontrar posição, mas dão espaço contraindo-se, sobejando muitíssimo espaço para todos.
A pele enruga-se, por vezes. Quando tudo está demasiadamente húmido, a pele encolhe-se, cria maleabilidade, fica mais fácil de manejar, derrete-se, engraçado que a frescura da água derreta a pele do homem, mas assim quis a natureza e sendo assim ninguém quer contrariar. A pele é tão sensível, que por vezes a mais fina folha de papel é o suficiente para a quebrar e a colocar num choro de sangue. É assim a pele, não sabemos nunca o que esperar dela! É ela que nos dá a sensibilidade para sentir o mais terno beijo apaixonado no pescoço que nos deixa assim, naquele estado, com aquela posição, com aquele olhar tolo que só o verdadeiro beijo apaixonado nos permite! É ela, a pele também que nos permite ás maiores dores possíveis e imaginárias, a dor de um estalo na cara, a dor de um soco no estômago…
O estômago, ele digere tudo o que ingerimos, tudo mesmo! A maior das dores a que nos sujeitamos, é deixada ao estômago, pesando nele a tarefa de a deglutir e esmiuçar, ao ponto de sorver dela apenas as proteínas obrigatórias, sugar dela, dessa dor que vem sabe-se lá de onde, as vitaminas necessárias para ir procurar algo bom, como amor. Amor é bom de digerir, principalmente quando é um amor que nos enche os pulmões de ar e os ossos de força para sustentar a carne que prende em si a pele que sente o beijo do verdadeiro amor!
O coração não para nunca! Mesmo morto, de cansaço, ele retém energias para continuar a bater, continuar a lutar! Ele não para nunca a sua missão, o seu trabalho nunca cessa. Em constante movimento ele fica ali, quieto! Nada o atinge, até que o estômago digere o amor e ele pode descansar um pouco, deixar-se a apreciar o resultado de amor de tal monta, de amor de tal tamanho. É quando tudo se revolve em torno do amor que o coração menos faz, pois a batida amorosa é sem esforço, o sangue quase se move por livre e espontânea vontade, não sendo necessário do coração grande trabalho. O coração fica só ali, parado no seu lugar privilegiado a assistir a tudo com um enorme sorriso nos lábio, se os tivesse…
O cérebro, ele ali fica, muito longe de tudo isto, constantemente analisando a possibilidade de tudo aquilo. Sempre conjecturando, vendo muito bem por onde pisa, com pena de que aqueles pés não sejam dele, com muita pena que nada surja por sua vontade, com pena que ele só sirva para manter registo, para ter saudades, para tudo o que é mau! O cérebro dedica-se apenas a coisas que não interessam na maior parte dos casos! O cérebro é o órgão menos interessante, é o menos edificante! É o que sente as coisas na medida que as analisa perdendo sempre muito do sentido! Ele paira ali algures, entre outros membros do corpo, sempre com uma aura de conhecimento, mas na mais pura das puras personificações de desconhecimento! Ele não sente nada, ele relativiza, ele constrói ideias, idealiza, pouco ou nada mais faz. Pena do cérebro que não sente amor, só o estuda! Pena do cérebro, o órgão mais triste!

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Silêncio.

Turbilhão de imagens sem sabor. Ingiro algo, só pelo simples acto de consumir.
Consumo-me inteiramente, eternamente, isso escapa do meu controlo. Escape! Tento evadir-me do real fingindo que eu posso, sim eu, consumir algo por minha própria vontade!
Fujo da realidade onde o meu corpo e ser se sorve por ele mesmo, para ele mesmo, sempre, infinitamente nesse ímpeto, vorazmente nesse hábito!
Habito o ser de mim sendo-me de menos para os outros sendo-me mais no silêncio do que alguma vez fui no ruído.
Lanço o meu corpo calado ao burburinho e ele silencia-se, somente para escutar o silêncio, o burburinho cala-se!
Grito calado o que o mudo silencia!