sexta-feira, 12 de agosto de 2011

algo

algo inédito mas revelador de maturidade... aqui seguem algumas palavras em memória de alguém, Miguel Torga esse alguém e eu o ninguém que o relembra...

Mudez

Que desgraça, meu Deus!

Tenho a Ilíada aberta à minha frente,

Tenho a memória cheia de poemas,

Tenho os versos que fiz ,

E todo o santo dia me rasguei

À procura não seu

De que palavra, síntese ou imagem!

Desço dentro de mim, olho a paisagem,

Analiso o que sou, penso o que vejo,

E sempre o mesmo trágico desejo

De dar outra expressão ao que foi dito!

Sempre a mesma vontade de gritar, Embora de antemão a duvidar

Da exactidão e força desse grito.

Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda

Na voz dos outros, todo eu me afogo

Neste mar de silêncio, íntima noite

Sem madrugada.

Silêncio de criança que ficasse

Toda a vida criança

E nunca conseguisse semelhança

Entre o pavor e pranto que chorasse.

Orpheu Rebelde (1962)