sexta-feira, 12 de agosto de 2011

algo

algo inédito mas revelador de maturidade... aqui seguem algumas palavras em memória de alguém, Miguel Torga esse alguém e eu o ninguém que o relembra...

Mudez

Que desgraça, meu Deus!

Tenho a Ilíada aberta à minha frente,

Tenho a memória cheia de poemas,

Tenho os versos que fiz ,

E todo o santo dia me rasguei

À procura não seu

De que palavra, síntese ou imagem!

Desço dentro de mim, olho a paisagem,

Analiso o que sou, penso o que vejo,

E sempre o mesmo trágico desejo

De dar outra expressão ao que foi dito!

Sempre a mesma vontade de gritar, Embora de antemão a duvidar

Da exactidão e força desse grito.

Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda

Na voz dos outros, todo eu me afogo

Neste mar de silêncio, íntima noite

Sem madrugada.

Silêncio de criança que ficasse

Toda a vida criança

E nunca conseguisse semelhança

Entre o pavor e pranto que chorasse.

Orpheu Rebelde (1962)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Que nem Phoenix, das cinzas, surge de novo este blog! Com este texto espantoso e este titulo extraordinário para texto tão maravilhoso, bem hajam!

E se te fosses foder? Já pensaste? Se te fosses foder, simplesmente, sem muito trabalho, sem cansaço, ias-te foder e pronto. Que tal? Se calhar é melhor explicar direito…

Imagina que acordavas de manhã e ias-te foder para a paragem do autocarro, ou do comboio, do metro, ou até á paragem do barco que te leva ao lado de lá.

Se já estás melhor de finanças e tens um carro para essas andanças, daqui para ali, de aqui para acolá, imagina que te ias foder para uma repartição das finanças. Que tal, consegues perceber melhor?

Sim senhor, eu simplifico, imagina que todos os dias os dias todos da tua vida, te ias foder lá para o trabalho, ias-te foder de manhã, quase sempre de tarde, uma vez por outra de noite! Todos os dias te ias foder, algumas das vezes, sem receber! Já me estou a fazer entender?

Não há problema, eu particularizo! Imagina que chegas a tua casa, ao teu piso, não tem importância, serve um piso qualquer, tens é de viver numa casa! Porque o que vive na rua, não se pode ir foder, já está bem fodido, lá do jeito que está!

Ora bem, a ver vamos, nem a meio do caminho estamos! Aquilo que eu quero dizer, é que se estás bem em casa, sentado ou deitado, de pé, ou meio de lado, apoiado na parede, ou deitado numa rede, muito provavelmente estás cansado que te mandem foder!

E agora, fiz-me entender? Sim senhora, muito bem, ainda há gente de bem que me escuta e com fervor não se importando tão pouco com o teor da linguagem, prestando somente e muito bem atenção á tão importante mensagem!

Ora bem, resumindo, bem sucinto e pequenino, o que te quero dizer com carinho, é que tu, ó Zé povinho andas meio ceguinho, ou isso, ou não queres ver, porque da maneira como te fodem, mesmo tu, um grande homem todo cheio de eloquência, de visão e inteligência já havias de ter feito um protesto, uma advertência!

Sim senhora, tens razão, tu fizeste-a e com respeito o que não lhes dá o direito de te mandarem pró caralho, que é um assunto que dá trabalho sobretudo na explicação, porque antes todos fodidos, do que todos no caralho!

Deixo-te agora e com amor um conselho de valor. Vás embora ou aqui fiques, só não quero que impliques com estas palavras fodidas, que regra geral são sentidas, ouvidas ou por entre lábios ditas, fazendo delas palavras importantes, certeiras e muito benditas!

Deixo-te agora um abraço e de favor só te peço que não espanques mais o palhaço, porque foder é um desporto de grupo e se tanto nos mandam foder e tanto nos deixamos foder, chegará de certo o dia em que fica claro que nos deixamos vencer!