quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Isto

Não sou filho bem disso, nem daquilo. Não penso muito nisto ou naquilo. Sou inquilino disto aqui, sem saber muito bem a que me refiro. Ao fumar este cigarro esguio, feito com as minhas próprias mãos, percebo que ele tem mais vida do que este corpo que o circunscreve numa frase. Ele tem uma muito maior chama do que quem o clama, ele vive bem mais no seu curto ímpeto do que eu neste longo arfar de dias e noites que se sucedem sem que algo surja!
Não sou filho de nada, sou angustia e desassossego, nem escrever sei bem, ou falar eu sei, sou nada e de nada pouco sou! Pais não tenho que conheça, pois seres que se prezem não produzem algo assim, não sou filho não! Nem perfilhado, nem adoptado, nem esquecido, não sou nada! Nem memoria me dou ao luxo de ser, pois para eu ser memoria, tenho de ter alguém que me recorde e nem para esse trabalho encontro operário que me sirva.
Não sou filho, ou ser, ou aborto, nem aborto, vejam só! Nem aborto sou, ou restolho, não sou nada! E pensando bem naquilo que digo, esse nada que me digo ser, não o chego a ser por falta de força, ou de vontade, ou por força de vontade! Não sou nada e esse nada, nada se limita a ser.
Mas parem já! Não é lamuria, não, não é lamuria não! Não o é! É expressar! É constatação! É consciência! Este nada, consciente é de que o é, nada, isto é! Este nada, sabe ser-se no nada, este nada é assim porque é assim. Nem tudo se explica, ou se sabe, nada, a nada sabe e sabe disso! Não sou filho, não, filho não sou.
Mas estou bem, estou bem sendo nada, nada sendo, como quiserem, o gerúndio dá sempre aquele laivo de inacção, aquela sensação de nada se fazer mas de tudo se ir fazendo…
Mas parem, por favor, de me ler parem já! Nem isso mereço, nem para isso tenho crédito!
O cigarro já morreu, viveu e logo morreu! Eu matei-o! Na minha vida eu matei-o, para a minha vida eu matei-o! E foi assim que ele viveu, a morrer em cada segundo, cada segundo mais perto do fim, cada segundo mais na minha vida e cada segundo também mais na sua morte! É, ele morreu e eu morro a cada passo também, alguém, algo me consome como eu a ele e por isso morro a cada instante, sem pensar nisso, sem considerar isso… a cada segundo morro eu e ninguém se preocupa com isso! Talvez seja por não ser filho de ninguém que morro tão rápida e obstinadamente, talvez por não ser filho de ninguém é que me esvaio apressadamente, talvez por ser filho de ninguém é que me queimo e mais e mais e mais, até não haver um “e” depois do mais!

2 comentários:

carolinaavilez disse...

És sim filho de alguém, ou melhor de "alguéns". E és sim memória, pois há neste mundo muitos que lembram de ti. Podes sentir-se um nada, mas nada também não o és. E força de vontade, curiosidade, determinação as tem, mas nem sempre isso é suficiente para alcançarmos algo!! E desistente, ahhh isso é que não és!!

Ricardo Leite disse...
Este comentário foi removido pelo autor.