sexta-feira, 31 de julho de 2009

Carga Rápida.

Um algo, um, apenas algo.
Os passos descem a avenida e cruzam esquinas.
Mais uns passos adiante e a pausa merecida.
Compram-se aromas, vendem-se sorrisos e oferece-se um bom dia.
O passo é já mais seguro, desce a avenida com a certeza de um pé em frente ao outro.
Nada de passos em falso, nada de percalços ou tropelias.
Como estes pés caminham, ou melhor, como estes pés caminharam já.

Fim

Vais deixar-me assim? Sem brilho, na caserna do desassossego a lidar com o final do brilho de mim mesmo? Com o final do brilho de tudo o que existe? Sonho só, meu mal é que sonho só! Fico aqui, horas, fechado no meu covil e sonho só, não como se apenas sonhasse, não é disso que se trata, trata-se de que sonho só, sozinho, sem ninguém do meu lado que comigo sonhe, que pelo menos me veja a sonhar e me acompanhe nesta leviandade mórbida que é sonhar-se o inatingível, que é sonhar-se o insondável, o impossível, o nada! Deixas-me aqui a sonhar o nada sozinho e isso tira-me tudo o que tenho. Não tenho força para escrever cores, não tenho resistência para descrever músicas, fico-me aqui, na descrição e queixume de nadas que são isso mesmo, absurdos nadas sem conteúdo, sem ponta de sonho ou significado, nadas apenas, uns atrelados aos outros rumando a um lago de apenas vácuo. Obrigado, dás-me a solidão e por surpresa, de ti retiro senão nada!

No Oceano mais profundo!

Preso no chão. Pés atados no cimento e movimentos muito amplos de braços e até mesmo da cabeça. Gira, gira mais e mais, gira ao ponto de se sentir tonto e por consequência sentindo a leveza da cabeça ás voltas. Liberta-se de tanto girar sobre si mesmo. O cérebro abre-se, milhares de cores saltam, a luz ofusca quem narra, a luz ofusca as letras marcadas no chão, a luz cega! O cimento não aguenta, pouco e pouco vai criando pequenas rachas, maiores rasgos, enormes fendas, quebra, note-se, o cimento quebra. Um pé solta-se e prende-se bem fixo ao chão. Auxiliando no equilíbrio, uma mão ajeita-se para auxiliar o pé que ainda se mantém cativo do cimento. Um pouco de destreza, um pouco de maleabilidade, um pouco de sonho e luz, luz mais ofuscante ainda! O outro pé solta-se, ambos os pés soltos, chega-se á altura de dar um passo qualquer. Tudo brilha, tudo é tão branco que um passo para qualquer lado é um passo para lugar algum. É indecifrável onde se vai pisar. Os pés estão cegos, o corpo está cego, as mãos estão cegas, a luz, essa cega intensamente! De olhos bem abertos, observando a profundidade do branco, solta-se a perna e roda-se novamente, uma e outra vez mais, ainda um pouco mais, gira-se sobre si mesmo e outra e outra e outra vez. Novamente a tontura, novamente tudo, tudo igual, menos a queda! Caído no chão o corpo ganha vida, tudo o que é partícula sente, tudo o que é pele se sensibiliza, tudo o que é tacto é visão! O corpo estende-se na superfície ainda branca, é indiferente os olhos estarem abertos ou cerrados, tudo isso é indiferente, é outro tipo de aurora, é outro tipo de despertar. O corpo no chão, vazio de tudo, no chão claro como a palavra claro, branco como branco…
Ouve-se ao fundo alguma coisa, escuta-se algo além de branco!

Das Estórias de Rodrigo.

Entrei no mundo e disseram-me assim:

- Vai, corre, corre o mais que puderes, faz o mais que puderes, tudo tenta, experimenta, tudo ridiculariza e engrandece! Não te esqueças apenas que o tempo nada esquece e que mais tarde, ou mais cedo, tudo dependendo dele, as contas a ser devidas terão de ser saldadas e bom que nesse tempo, tenhas já amealhado o suficiente, para que pagues o que o tempo te dá agora sem nada cobrar. Confia-me, mais tarde ou mais cedo, consoante a sua vontade, a cobrança chegará. Acautela-te, não gastes nunca tudo e não poupes nunca demais, mede-te e assim serás medido, compreende-te e assim serás sabido. Faz de tudo o que quiseres, mais tarde, ou mais cedo, conforme o seu desejo, tudo te será cobrado. Guarda as melhores moedas para o fim, pois ele chegará, asseguro-te, ele chegará, até hoje sempre chegou na hora certa, pontual que é o tempo!

Abandonando o Berço.

Espero-me no acalmar da bravia sede e fome que investem sobre mim rasgos de melancolia. Submirjo por entre os abismos da minha própria cólera e fico perplexo com aquilo que tenho ainda a aprender. O caminho apresenta-se tão extenso, tão longínquo e esguio que os meus pés me doem já, mesmo antes de sair da cama. As vontades carnais que me consomem, o desejo, a pura e inapta vontade de consumir alimentam-se de mim e deixa-me assim, como estou agora mesmo, um esqueleto, desprovido de carnes e músculos e sangue e veias, só osso, branco, duro e recto!
Abro uma das mãos em ossada e olhando-a, preencho todo aquele vazio de real com imaginação, imagino as minhas veias, a minha carne e o meu músculo, imagino a minha pele, a camada que me protege de adversidades mundanas e desviantes. Imagino aquela camada de corpo pensante que criei, imagino-a e num ápice só, ela realiza-se, inundando o mundo da minha verdade e virtude. Eu sou, nada mais, nada menos do que aquilo que me imagino, única carga que não controlo, ou escolho, são estes ossos, que já aqui estavam antes de mim e que depois de mim ficarão para outro que os queira revestir com a sua carne. Ah! Meu corpo, Ai! Revida para com a vida, dá-lhe luta! Ah, despoleta em ti mesmo o senso de existência e permanece calmo quando o azulado se entreponha entre ti e o mundo; e preenche-te de cólera quando tudo estiver calmo! Reserva-te com antagonismos, vive entre os abismos e como tal, transforma-te, ganha outras formas e para que a queda não te atemorize, imagina-te ave, ou felino, ou folha caída de árvore, bem lá do alto, mas numa queda paciente, coerente e sábia.
Esquece o desprovido corpo em que te imaginaram, esse era só um embuste, coberto de falhas, envolto em miudezas que não te permitiam ser quem queres ser, que te recusavam o acto de agir, mesmo antes de pensares faze-lo. Ai! Sofre, sofre imenso, dedica-te ao sofrimento ao ponto de o sofrimento ser nada mais que uma palavra. Coloca ambos pés no chão, finca-os com leveza mas acompanhado de sagacidade no solo e assim sendo, caminha! Não deixes que tua cabeça, comandante de tudo isto, bem lá do topo se deixe toldar pelas alturas e pela vertigem se sinta ludibriada e com vontade de subir mais alto ela por si só, obriga-a a ficar-se bem chegada do corpo, subindo com os pés e com o restante conjunto ás alturas que almeja, só assim te serás pleno, tal como te imaginas! E imagina-te, nem por um momento te dediques ao acto de te adorares, imagina-te só, imagina-te sempre mais e melhor, quanto mais te imaginares, mais terás de te realizar, mais terás a conseguir, a executar! Executa, ah! Executa como poucos conseguem e muitos tentam, mas por favor faz-te! Por favor, só não te faças homem, não te transformes numa palavra, não te transformes num sonho! Isso seria o meu maior pesadelo, que a fim de tudo fosses só um sonho, só um homem! Transforma-te ao ponto de deixares de saber o que és e por tal teres de te procurar insistentemente, só assim te encontrarás mais! Como no sexo, lugar de imaginação, onde tudo se repete e sempre mais fundo e mais forte e mais rápido e quente e húmido e pérfido, repete-te tu também, ao ponto da petiz mort! Nessa morte, nesse momento de vácuo, aprecia a calma, o egoísmo dessa calma e o desassossego de se permanecer somente aí, onde nada se imagina e tudo é real! O prazer é real, o cansaço é real, a loucura é real, tudo é real e ao mesmo tempo, fruto da tua imaginação! Ai! Transpira desse teu corpo toda a calma, transparece dessas tuas veias o nervosismo e imagina-te imperfeito, imaturo e ruminado, cuspido pela vaca que te pariu novamente, imagina-te de novo no berço e com todo o caminho de fronte a ti uma vez mais! Nesse momento, no momento em que tudo se afigura como uma repetição dura, rude, assustadora e exasperante, imagina um sorriso no rosto, um rubor nas faces e acima de tudo, imagina que tens vontade de repetir tudo de novo, imaginar tudo do zero uma vez mais! Aí ri-te, do tempo, do corpo e dos ossos, especialmente ri-te dos ossos, que se mantêm rectos, brancos e duros, ri-te deles, pois é de mau trato que te rias da pele negra, essa pele que agora envergas, pisada pela queda do segundo parto. Ri-te do mundo, de tudo a que à tua volta se encontra, faz-me o favor e ri-te só, não me questiones, quando te rires vais ver o proveito de te teres imaginado como querias e de mesmo assim seres forçado a reconhecer que não te imaginaste ainda o suficiente e que por isso é que tens de tentar novamente e possivelmente uma vez mais ainda, tantas até deixares de achar graça a esse lugar que é o fosso, o fim.