terça-feira, 23 de junho de 2009

Marco de Correio

Sou um velho sentado do lado de um marco do correio. O mais importante não é que eu seja velho, o mais importante é que estou mesmo aqui, do lado do correio, mesmo ao lado deste amigo vermelho, deste marco de atenções, de noticias, este marco do mundo e ninguém me vê!
Sou um velho ao lado de um marco dos correiros e estou aqui, somente sentado, somente a passar o tempo, já que sinto que a maior parte dele, para mim, já passou, agora só estou a passar o tempo até que me acabe o tempo.
Houve um tempo em que eu temia o tempo, tentava sempre correr á frente dele, sempre precavendo tudo, cuidando de tudo para que quando chegasse aqui, a este exacto momento, não tivesse de me servir da companhia de um marco de correio.
Mas olhem, aqui estou! Aqui do lado do meu grande amigo, o marco de correio! Olho para trás, olho muito para trás, olha para como as coisas eram no meu tempo, lá longe, onde o meu tempo me valia de alguma coisa! Agora só sinto isto, sinto isto de sentir que pouco ou nada me vale passar este momento no tempo.
Sou só um velho aqui, parado no tempo ao lado do meu companheiro marco do correio.
Vezes há em que o senhor dos correios me lança um bom dia com o aceno da cabeça, respondo-lhe de volta, mas eu acho que ele está tão ocupado a gastar o tempo dele que nem quer saber daquilo que eu lhe podia poupar de tempo em conselhos, por isso deixo-me ficar assim, calado no tempo, calado comigo, quieto, como que a tentar mostrar que nem me importo com este virar constante do mundo.
No final das contas sou só um velho ao lado de um qualquer marco de correio, com o passar do tempo penso que até perdi a noção do tempo, olho para trás e não sei sequer a minha idade! Pensando bem nisso não tive nunca bem noção da minha idade, só me lembrava dela quando me era apontada, estava tão pregado a prestar atenção á forma como se vivia no meu tempo que me esqueci de que sou eu que vivo num determinado tempo.
Olho hoje para trás e reconheço que a minha maior revolução não foi sequer a de Abril, essa serviu só aqueles que souberam aproveitar-se do tempo, tomando partido da vantagem do dinheiro poupar tempo, do dinheiro poupar tudo! A minha maior revolução foi um dia em que me recusei a ir comprar o pão para o almoço de domingo, disse que não à minha mulher e essa foi a última palavra! Nunca mais me esqueço que desde esse dia até hoje não consigo deixar de comprar pão bem cedo ao domingo de manha, mesmo vivendo eu já sozinho, mesmo tendo terminado o tempo da minha esposa e mesmo não tendo os meus filhos comigo, por eles se dedicarem a ocupar o tempo com as coisas deles.
Sou um velho, sozinho, sentado ao lado de um marco de correios e só tenho pena de não ter passado mais tempo com os meus filhos, para que agora, quando eu não tenho mais nada para fazer com o meu tempo, ao menos tivéssemos interesses em comum e conversas que nos deixassem contentes, pelo menos por um breve período de tempo, antes de eles terem de voltar para a azafama de constituir a própria vida antes de eu ter de me deixar cair no tempo, tropeçar no tempo…
Sou somente um velho, irrelevante se estou frente ao marco do correio ou á porta da missa, sinto-me sozinho e essa solidão nem uma eternidade de tempo cura, pois eu sinto-me sem tempo para aproveitar agora a juventude que desperdicei.
Sou velho e queria ser novo e com rubor no rosto, um rubor igual aquele do marco do correio. Se eu fosse novo, ai se eu fosse novo, com a experiência que tenho hoje, não me faltariam maneiras de passar bem o meu tempo!
Mas sou feliz, ouviram bem? Este velho aqui é feliz! Eu vivi um tempo só meu, só eu sei o que o meu tempo me deu e por mais que o queira partilhar, vocês jamais teriam tempo para ouvir um velho como eu!

1 comentário:

FJ disse...

Bem, vim ao teu blog na altura em que fizeste o chat e partilhas-te com o pessoal o endereço. Depois vim cá mais algumas vezes mas nunca tinha comentado. Entretando esqueci-me do endereço. Hoje decidi procurar novamente o teu blog já que havia ficado surpreendido, pela positiva, com a forma como escreves, e encontrei. Parabéns.

Relativamente a este texto, quantos de nós não seremos uns velhos sentados ao lado do marco do correio? A única diferença é que muitos não são felizes.

Este está realmente fantástico.