quarta-feira, 24 de junho de 2009

Tempo em contratempo como alimento.

Ruminar. Mastigar-se o tempo com vontade, quebrar-lhe os nervos, apreciar o seu gosto. Passar o tempo, passar o tempo com gosto, gostar de se passar o tempo. Mastigar aquele tempo, aqueloutro também, juntar-lhes os sabores e misturar-lhes as carnes. Cravar bem fundo os dentes no tempo e dividi-lo em parcelas. Parcelas grandes, parcelas enormes que trinchamos em outras mais pequenas e outras diminutas e em outras ínfimas! Deglutir o tempo e deixar que tudo se misture. Amassar-lhe as partes, tirar-lhe os vincos e fazer uso dele! Deglutir o tempo e apreciar a sua redução a pequenos pedaços, menores ainda que os iniciais, menores ainda do que os primordiais, tão menores que se não distingam uns dos outros, tão pequenos que só reste o liquido e o sólido, tão pequeno que só existam partes para deixar no lixo, tudo tão diminuto que nos restam apenas os pequenos pedaços que ficaram na boca e nos incomodam por estarem presos nos dentes, que nos incomodam por nos darem a sensação de termos tempo de mais para estarmos até preocupados com os nossos dentes. Tudo tão pequeno que já tudo tenha muito pouco sentido e nos apercebamos que temos mais tempo para ruminar, mais tempo ainda para mastigar com vontade, para apreciar o gosto, dividir e seccionar e depois deglutir! Tudo tão pequeno ao ponto de parecer ridículo este passar de tempo onde apenas se rumina, tão ridículo ao ponto de se dar o salto para o deglutir apenas, tudo tão ridículo que quase se morra de fome por se não ter tempo de se poder apreciar o tempo degustando-o!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Marco de Correio

Sou um velho sentado do lado de um marco do correio. O mais importante não é que eu seja velho, o mais importante é que estou mesmo aqui, do lado do correio, mesmo ao lado deste amigo vermelho, deste marco de atenções, de noticias, este marco do mundo e ninguém me vê!
Sou um velho ao lado de um marco dos correiros e estou aqui, somente sentado, somente a passar o tempo, já que sinto que a maior parte dele, para mim, já passou, agora só estou a passar o tempo até que me acabe o tempo.
Houve um tempo em que eu temia o tempo, tentava sempre correr á frente dele, sempre precavendo tudo, cuidando de tudo para que quando chegasse aqui, a este exacto momento, não tivesse de me servir da companhia de um marco de correio.
Mas olhem, aqui estou! Aqui do lado do meu grande amigo, o marco de correio! Olho para trás, olho muito para trás, olha para como as coisas eram no meu tempo, lá longe, onde o meu tempo me valia de alguma coisa! Agora só sinto isto, sinto isto de sentir que pouco ou nada me vale passar este momento no tempo.
Sou só um velho aqui, parado no tempo ao lado do meu companheiro marco do correio.
Vezes há em que o senhor dos correios me lança um bom dia com o aceno da cabeça, respondo-lhe de volta, mas eu acho que ele está tão ocupado a gastar o tempo dele que nem quer saber daquilo que eu lhe podia poupar de tempo em conselhos, por isso deixo-me ficar assim, calado no tempo, calado comigo, quieto, como que a tentar mostrar que nem me importo com este virar constante do mundo.
No final das contas sou só um velho ao lado de um qualquer marco de correio, com o passar do tempo penso que até perdi a noção do tempo, olho para trás e não sei sequer a minha idade! Pensando bem nisso não tive nunca bem noção da minha idade, só me lembrava dela quando me era apontada, estava tão pregado a prestar atenção á forma como se vivia no meu tempo que me esqueci de que sou eu que vivo num determinado tempo.
Olho hoje para trás e reconheço que a minha maior revolução não foi sequer a de Abril, essa serviu só aqueles que souberam aproveitar-se do tempo, tomando partido da vantagem do dinheiro poupar tempo, do dinheiro poupar tudo! A minha maior revolução foi um dia em que me recusei a ir comprar o pão para o almoço de domingo, disse que não à minha mulher e essa foi a última palavra! Nunca mais me esqueço que desde esse dia até hoje não consigo deixar de comprar pão bem cedo ao domingo de manha, mesmo vivendo eu já sozinho, mesmo tendo terminado o tempo da minha esposa e mesmo não tendo os meus filhos comigo, por eles se dedicarem a ocupar o tempo com as coisas deles.
Sou um velho, sozinho, sentado ao lado de um marco de correios e só tenho pena de não ter passado mais tempo com os meus filhos, para que agora, quando eu não tenho mais nada para fazer com o meu tempo, ao menos tivéssemos interesses em comum e conversas que nos deixassem contentes, pelo menos por um breve período de tempo, antes de eles terem de voltar para a azafama de constituir a própria vida antes de eu ter de me deixar cair no tempo, tropeçar no tempo…
Sou somente um velho, irrelevante se estou frente ao marco do correio ou á porta da missa, sinto-me sozinho e essa solidão nem uma eternidade de tempo cura, pois eu sinto-me sem tempo para aproveitar agora a juventude que desperdicei.
Sou velho e queria ser novo e com rubor no rosto, um rubor igual aquele do marco do correio. Se eu fosse novo, ai se eu fosse novo, com a experiência que tenho hoje, não me faltariam maneiras de passar bem o meu tempo!
Mas sou feliz, ouviram bem? Este velho aqui é feliz! Eu vivi um tempo só meu, só eu sei o que o meu tempo me deu e por mais que o queira partilhar, vocês jamais teriam tempo para ouvir um velho como eu!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Cerebral!

Deliciam-se os ossos do sabor da carne! Envoltos por ela sentem-se protegidos. O sangue flui harmoniosamente, nada nem ninguém o detém! De ponta a ponta, de lés a lés, desse corpo ele flui, freneticamente e num modo que nos faz questionar se ele é mais necessário num qualquer outro lugar.
Os pulmões absorvem do mundo aquilo que é deles por direito, o ar! Sorvem-no com candura, como que tirando, colher a colher, cada partícula de ar que necessitam! Eles expandem-se, obrigam todos os outros órgãos a encontrar posição, mas dão espaço contraindo-se, sobejando muitíssimo espaço para todos.
A pele enruga-se, por vezes. Quando tudo está demasiadamente húmido, a pele encolhe-se, cria maleabilidade, fica mais fácil de manejar, derrete-se, engraçado que a frescura da água derreta a pele do homem, mas assim quis a natureza e sendo assim ninguém quer contrariar. A pele é tão sensível, que por vezes a mais fina folha de papel é o suficiente para a quebrar e a colocar num choro de sangue. É assim a pele, não sabemos nunca o que esperar dela! É ela que nos dá a sensibilidade para sentir o mais terno beijo apaixonado no pescoço que nos deixa assim, naquele estado, com aquela posição, com aquele olhar tolo que só o verdadeiro beijo apaixonado nos permite! É ela, a pele também que nos permite ás maiores dores possíveis e imaginárias, a dor de um estalo na cara, a dor de um soco no estômago…
O estômago, ele digere tudo o que ingerimos, tudo mesmo! A maior das dores a que nos sujeitamos, é deixada ao estômago, pesando nele a tarefa de a deglutir e esmiuçar, ao ponto de sorver dela apenas as proteínas obrigatórias, sugar dela, dessa dor que vem sabe-se lá de onde, as vitaminas necessárias para ir procurar algo bom, como amor. Amor é bom de digerir, principalmente quando é um amor que nos enche os pulmões de ar e os ossos de força para sustentar a carne que prende em si a pele que sente o beijo do verdadeiro amor!
O coração não para nunca! Mesmo morto, de cansaço, ele retém energias para continuar a bater, continuar a lutar! Ele não para nunca a sua missão, o seu trabalho nunca cessa. Em constante movimento ele fica ali, quieto! Nada o atinge, até que o estômago digere o amor e ele pode descansar um pouco, deixar-se a apreciar o resultado de amor de tal monta, de amor de tal tamanho. É quando tudo se revolve em torno do amor que o coração menos faz, pois a batida amorosa é sem esforço, o sangue quase se move por livre e espontânea vontade, não sendo necessário do coração grande trabalho. O coração fica só ali, parado no seu lugar privilegiado a assistir a tudo com um enorme sorriso nos lábio, se os tivesse…
O cérebro, ele ali fica, muito longe de tudo isto, constantemente analisando a possibilidade de tudo aquilo. Sempre conjecturando, vendo muito bem por onde pisa, com pena de que aqueles pés não sejam dele, com muita pena que nada surja por sua vontade, com pena que ele só sirva para manter registo, para ter saudades, para tudo o que é mau! O cérebro dedica-se apenas a coisas que não interessam na maior parte dos casos! O cérebro é o órgão menos interessante, é o menos edificante! É o que sente as coisas na medida que as analisa perdendo sempre muito do sentido! Ele paira ali algures, entre outros membros do corpo, sempre com uma aura de conhecimento, mas na mais pura das puras personificações de desconhecimento! Ele não sente nada, ele relativiza, ele constrói ideias, idealiza, pouco ou nada mais faz. Pena do cérebro que não sente amor, só o estuda! Pena do cérebro, o órgão mais triste!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Silêncio.

Turbilhão de imagens sem sabor. Ingiro algo, só pelo simples acto de consumir.
Consumo-me inteiramente, eternamente, isso escapa do meu controlo. Escape! Tento evadir-me do real fingindo que eu posso, sim eu, consumir algo por minha própria vontade!
Fujo da realidade onde o meu corpo e ser se sorve por ele mesmo, para ele mesmo, sempre, infinitamente nesse ímpeto, vorazmente nesse hábito!
Habito o ser de mim sendo-me de menos para os outros sendo-me mais no silêncio do que alguma vez fui no ruído.
Lanço o meu corpo calado ao burburinho e ele silencia-se, somente para escutar o silêncio, o burburinho cala-se!
Grito calado o que o mudo silencia!

domingo, 14 de junho de 2009

Homenagem a Meses Tropicais!

Algo Teu

É o nosso amor a mudar
Sente o nosso amor a mudar
Qualquer passo é bom para cair
Isso é só alguém a falar
Nosso amor
Prepara uma bela sopa de manhã
Filho meu tem de se tratar bem

Não falei que é certo
Só que existe em nós
Em meu desejo sim eu vou
Eu nosso medo eu volto
Não adianta vamos ser sempre nós
Voltas a pensar isso é estranho
Como é estranho ver nosso amor mudar

Como é estranho ver nosso amor mudar

É a nossa voz a dizer
Mesmo se um dos corpos negar
Qualquer tempo acaba por ser
Teve o nosso amor de mudar
Sente o nosso amor a mudar
Sente o nosso amor

Sente o nosso corpo a tremer
Vendo a nova estrela a brilhar
Qualquer sol aprende a nascer
É só nosso amor a mudar
Para o nosso medo mover
Respirar...

Letra de Manuel Cruz (Ornatos Violeta)

Partida de hoje em diante!

Partida. Dá um passo e chega a pausa, pausa somente para que o outro pé acompanhe a passada. Vai repetindo o processo até que quando olha para trás, aquilo que chamava de lar já não se reconhece por entre o borrão de cores que ficou a paisagem. Dá passos contínuos, continuamente! Parece nem saber para onde vai, mas a verdade é que segue em frente e esse parece-lhe um bom caminho, em frente.
Deixa para trás velhas memórias, momentos que o marcaram e marcarão para o resto da vida, tem um destino e agora esforça-se por correr atrás do tempo perdido. É absurdo quando nos deparamos com o tempo que perdemos em coisas de menos interesse!
Partiu! Segue o seu caminho, mesmo sem rumo, ele caminha. Caminhar sozinho é um desafio, das maiores provações que já sentiu, mas sozinho parece ser a resposta, parece ser o melhor método para atingir o seu fim, por isso, segue ele!
Nada o prepara para o que o espera, mas em contrapartida tudo o que viveu foi inesperado, todas as suas anteriores partidas lhe deixaram memórias fabulosas a par com momentos pavorosos, esta partida não deve ser diferente, a única coisa que diferencia tudo é o facto de ele saber que para esta partida não existe retorno, não existe sequer chegada, um movimento constante, é isso que o move!
Move-se então para o desconhecido, desconhece o futuro, mas podem apostar que o vai descobrir!
Pela descoberta lança-se de pés juntos pelo mundo.
Parte!

sábado, 13 de junho de 2009

"B" de Beijo

Ramos do desassossego. Aproxima-se da minha cara o beijo. Sensação de estar em falta, não sei bem para com quê, mas muito provavelmente estar em falta para comigo mesmo.
O beijo chega. Vários segundos de pausa. Ao fim de alguns segundos de pausa, percebo que passaram já vários minutos. Quando os minutos não chegam, avistam-se as horas.
Estou parado num beijo faz já uns meses!
Tem momentos em que me parece sentir algum movimento, é no entanto ilusório, é somente uma brisa que me traz o aroma de outros gestos. Parado num beijo. Permaneço, parado num beijo!
O beijo preenche-me! Tanto quanto me ocupa, o beijo preenche-me!
Sinto o beijo em maior força, quanto mais parado me deixo estar.
Assim fico, parado no beijo, tão parado que meu corpo começa a solidificar, meus pés penetram o chão e enraízam-se, os braços prendem-se um ao outro, formam um abraço estático, sólido e por demais enfático! As mãos colam-se uma na outra, tanto assim, que fica difícil distinguir qual é qual.
Só os lábios permanecem vivos, rubros, vibrantes, como que sorvendo toda a vida do corpo para continuarem a receber o beijo.
E que beijo esse…
O sabor dos lábios mescla-se, ambos são apenas um!
O que dizer sobre esse beijo que não esteja escrito em poemas e prosas mil?
Dizer que é puro, dizer que é o mais puro de todos os beijos , falar que beijo assim é a prova que a utopia existe, que foi feita para ser conquistada.
Sabor de rosas, alegria de festa e candura de primeiro beijo! Aroma de chegada de verão, som de harpas, noite de lua cheia e primeiro mergulho no mar.
Sabor a paixão, candura, amor além da palavra! Amor além do conceito!
Beijo onde as línguas conversam, tocam-se e bailam. Beijo de tudo!
Beijo imenso que dá vida ao deserto!
Beijo perfeito, como ela!




Dedicado à "Bela"!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mãos

Duas, quatro mãos, movem-se em contradição de si mesmas. Tocam algo que não reconhecem por não terem olhos para ver, são só mãos para sentir!
Sentem-se então amputadas, de tanto sentir estão amputadas, sentem tanto mas não se sentem e portanto ressentem-se disso. Evadem-se, subtraem-se e cruzam-se em par, ficam sós, mesmo sendo duas um par!
Pouco ou nada se sorriem, pouco ou nada se são se não se reencontram cada uma com seu par.
No entretanto coçam-se, enroscam-se por cabelos, prendem-se no pescoço, deixam-se cair e visitam cada uma sua perna, mas nada se assemelha aquele toque de dois pares, quatro batidas, vinte dedos quatro pulsos, a multiplicação de tudo e a adição que isso gera!
Foi assim que as mãos se souberam apaixonadas!

Subjogo-te!

Subjugo o trevo de quatro e jogo com ele.
Sorteio-me o destino de ser quem quero.
Serei quem sou?
Decido e sou-o!
Não me dilacera o antagonismo entre humildade e arrogância.
Mais me toco e mais me sinto,
Mais me sinto e menos me toco de tudo.
Tudo é tudo e nada é o que tiver que ser,
Eu é que não sou nada disso.
Sou-me sendo, o que sabendo ser, não fui!

Criança

A respiração calma e aqueles olhos enormes que parecem sorver tudo o que abrangem.
Existe quase como que uma necessidade de beber de tudo, comer e degustar de tudo, sente-se ali uma vontade de crescer constante que quando muito, aumenta, nunca diminui ou abranda o ritmo.
Sente-se ainda uma vontade enorme de testar limites de ver até que ponto o braço estica, até onde a imaginação pode criar algo real. Sonha-se o futuro só porque lhe pedem isso, por ela vivia sinceramente o presente todos os dias e todas as horas!
Sorri um pouco mais assim que sente um pouco mais, mas sentir pouco é impossível. Sensitiva até á ponta dos cabelos!
Movimentos tão precisos que parecem coreografados, no entanto coberta de manias e coisas que fazem dela, ela!
É nada mais nada menos que uma criança e muitas vezes eu queria ser uma delas, mais ainda, mais sincero, mais melhor, melhor bom!

Rascunho de mim

Solto-me pelo mundo e deixo a juventude de mim crescer. Vou envelhecendo, sinto os músculos tonificar e a mentalidade desenvolver. Aproximam-se os dias de decisões e eu, eu ali estou, pronto para, pelo menos, optar…
Optar é por si só difícil, mas quando se opta pela primeira vez é um jogo de risco, tudo é um risco, até mesmo as opções, todas elas se afiguram como ratoeiras, todas elas surgem com caminhos escondidos.
Primeiras decisões e primeiros tropeções a par delas. Vai-se caindo, mas parece sempre recobrar-se para um patamar mais forte! Assim se cresce, caindo e andando, caindo e levantando! As decisões vão ficando sobre o nosso controlo, com tantas quedas vamos ficando mais atentos e exigentes, dificilmente caímos e mais ou menos por essa altura solidificamos!
O nosso rascunho fica terminado, linhas fortes, vigorosas. O traço é claríssimo e a figura parece-nos perceptível, pena a ausência de preenchimento! Com o medo de cair fomos esquecendo a coloração do desenho, sobra-nos agora uma folha branca com uma série de linhas bem uniformes e vincadas, um desenho, quase como que uma partitura com todas as notas, todas as regras, todas as oscilações e compassos, tudo! Tudo menos a música.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Já fui!

Já fui. Regresso mas já fui! Sou o eu que não é mais, sou aquilo que acalentas!
Já fui, mas volto já, no caminho a mim me encontro por ti passo e reencontro.
Já fui, mas nos teus beijos regresso, por eles apanho o expresso, por eles volto a ir-me!
Já fui, por ora não me procures mais, revolta o teu olhar e por mim faz tu mais!
Já fui, perdi-me no eu de outrora mas lá vou, já naquela hora, indo em busca de desiguais!
Já fui, mas volto ás pressas!
! Já fui, mas volto jamais aqui, mas me encontras mais ali, mais me perdes ficando aqui!
Já fui, só te espero logo ali, depois parto e é o fim!
Já fui, mais tarde iria a menos me permitisse!
Já fui, já me sinto a fugir, neste sitio me sinto a ir, neste lugar em que quero ficar!
Já fui, mas só o digo para me enganar, meu desígnio é ficar, minha premissa é cá estar!
Já fui, mas minto!
Já fui, mas não o sinto, sinto só que permaneço e que a algo maior eu obedeço!
Já fui, mas não me permito a soltar os pés!
Já fui, mas não consigo soltar-me, já fui, já fui, já fui!
Mas não fui nada, porque o nada aqui sobeja!
Porque revolta a coisa amada, queria-a em mim e lá se deixa ir ...
Já fui mas o nada de mim me espera se sair para esse tudo...
Já me fui, mas não sei eu bem para onde, sigo fugido não sei de onde, sigo morto não sei para onde!
já fui, mas estou aqui, e isso é estranho, mas vejo-me aqui e mais me entranho neste lugar!
Já fui, mas este nada é tanto, mesmo sem nada é tanto!
Já fui, mas demasiado me parece nada, se for!
Não vou, repito que não vou!
Tendo já eu ido, eu não vou, daqui não saio e por isso me ancoro!
Daqui não saio e me cimento, só os pés, mas me cimento!
Não saio, nada daqui me é estranho, por isso não saio!

Já fui, mas só no pensamento, meu corpo está aqui, e eu estou bem atento!

domingo, 7 de junho de 2009

Repto á iluminação!

Entre o sonho e a dúvida. Caminhando inconstante pelo sonho, com dúvidas na mente. Mente dizendo seja o que for! Mente só! Mas na mentira existe a honestidade, na mentira existe, mais que não seja, a verdade do acto de mentir, pois é verdade que se mente!
Filtram-se milhares de coisas por uma lupa de incerteza, insípidos dias passam, mas retira-se deles, mesmo assim, tudo aquilo de que se gosta. Supõe-se um mundo de perfeição, algo que não interessa, são necessários erros, coisas que não batam certo, torna-se essencial saber que algo está errado, para que exista a vontade de acertar! É, por conseguinte, necessário falhar, o erro é um forte sinal de que estamos vivos!
Sendo assim,
Pensa em ti! Sonhas o mundo e não o vives? Sonha menos, vive mais, pensa menos no futuro e olha para o teu presente, tira os olhos de ti e com eles vê á tua volta, aquilo que vês está sempre ali! Sempre ali até ao momento que se cansa de ti! Não deixes aquilo cansar-se, não permitas a morte de uma parte de ti, não te permitas ao suicídio de algo teu!
Desprende-te um pouco, desenvencilha-te! Sê um pouco mais arrojado a tomar o pequeno almoço e sai de barriga cheia para o mundo!
Sai com as tuas certezas, com os teus propósitos! Partilha-os! O teu sonho é impossível porque ele é só teu! Partilha um pouco do teu sonho e verás o que acontece, mais provável é, que á primeira nem funcione, ou á segunda, até mesmo á quinquagésima, mas é bem possível que na centésima, encontres algo de bom, um sonho sonhado por mil, um sonho sonhado por outros que pode ser de facto a essência do teu sonho!
Sonha menos, faz mais, mas leva esse teu sonho contigo, propaga o espaço com ele, sonha-o no real! Realiza-te. Não permitas seres-te ausente de ti próprio, não te prometas ao anonimato, promete-te á discussão, ao barulho, o silêncio é vazio, é vácuo, é calmaria de quietude.
Não sonhes para estar quieto, sonha para desembainhar a espada, sonha para fazer correr sangue, o sangue que irriga o cérebro, faz com as armas uma verdadeira guerra de pensamento, descobre e usa as armas que necessitas para materializar um sonho!
Não fiques numa conversa de loucos em que todos dizem o mesmo com termos diferentes!
Não uses os óculos de sol, aqueles que te protegem da luz! Usa os óculos escuros, aqueles que te permitem a ver com mais clareza o que o sol ilumina em demasia!
Não sejas só tu, sê um pouco mais de ti!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Noite do Borralho (stand-up thing)


Este é um espectáculo fora do vulgar, não que com isso se pretenda dar a esta apresentação um ar de erudição, nada disso se aplica. Este é simplesmente um espectáculo pessoal que pretende de algum modo ajustar-se às necessidades da plateia que o assiste. Por “a” mais “b” este é um espectáculo que pretende ser cómico, mas á semelhança de muitas coisas que nos deveriam fazer sorrir, este pode no mínimo fazer-nos questionar!
Noite do Borralho vem de uma necessidade de dar uso ao… engenho.
Desconstruir ideias pré-estabelecidas, discutir preconceitos, afligir estruturas, mas mais importante do que isso, entreter e criar um certo ambiente familiar entre as pessoas que assistem ao espectáculo, ou apresentação, ou intervenção, ou seja o que for que as pessoas queiram chamar-lhe.
É uma peça de um acto, pois mais actos que isso seriam dispensáveis, pois o acto de subir a palco e falar-se o que se pensa já é um acto suficientemente importante para que depois disso se repita em outros actos menos próprios, ou mais desgastantes, ou maçantes, ou até mesmo escatológicos demais.
Partindo da Stand-up Comedy, o actor Ricardo Leite pretende contar a sua história, uma história que tem pontos em comum com outras pessoas, pontos em comum com outras histórias. É sempre com tom de piada que ele leva o público pelas suas aventuras e desventuras.
Passando pela sua experiência no Brasil, indo aos autocarros do porto, falando um pouco da dicotomia de linguagem entre homens e animais e sobretudo discutindo a relação entre homem e mulher, Ricardo vai discutindo como ele se sente no mundo actual e aquilo que ele pensa fazer para mudar um pouco.
É uma peça completamente pessoal, partindo das experiências individuais do autor e interprete Ricardo Leite. É no fim de contas uma partilha de um diário pessoal que ele pretende que seja visto por mais pessoas, tantas quantas possam suportar a sala de espectáculos.
Noite do Borralho é a noite indicada para se mandar tudo pró… interior!
Noite do Borralho é uma noite do… mais meta teatral que existe.
Venha à noite do Borralho, ou então vá pró… seu quarto e relaxe um pouco!