terça-feira, 26 de maio de 2009

Pleonástica presença

E que carência, que vontade de tocar e ser tocado de sentir e de me fazer sentido, ocupar o espaço de outrem com a minha nítida e pleonástica presença notória!
Beijar uns lábios que me queiram. Sentir o deleite de em candura perder-me.
E palmilhar, por esse mar de sentidos viajar e colher frutos, trocar, entregar-me a ferro e fogo e esvaziar de mim o mal que me faço só!
É audível o meu choro seco! Choro que mais não é senão “mimese” da vontade de que me agarrem! Vontade de que por mim se toldem!
Aqui neste lugar vazio não sou mais homem, não sou mais nada senão a guerra que em mim travo. Guerra que diariamente me consome as forças que necessito como de luz para continuar guerreando dia a dentro.
Por fim perco-me na conclusão, para quê tanta luta, porquê? No final do dia não sou mais eu, não me conheço mais ou me encontro! Perdido numa selva de tiques e preconceitos que ainda não percebo como se apegaram a mim!
E no entanto quero amar, entregar-me por inteiro e prontamente! Sou mais eu quando me dou, sou mais eu quando adormeço e não me peso, sou mais eu quando me esqueço de que sou!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Rotina

O dia entra em velocidade de cruzeiro, o piloto automático assume todas as funções e eu deixo-me cair na dormência.
Tudo passa e nada acontece comigo. Fico inerte a tudo e sem possibilidade de readquirir os comandos.
Mantenho no entanto a minha mão no botão de pânico, sempre pronto a reagir se a dormência se abalar.
Mais um dia escorre e eu sem o meu copo!

Sonhos

Lembro-me dela a sonhar no vazio, preenchendo-o, com cores aromas e formas. Vejo o raio de sol que se escapa por entre as folhas e que a ilumina e enquanto me embala no mais calmo sono.
As imagens que vai agregando vão-me dando espaço, lugar, para me acontecer, me fazer.
A brisa sopra um pouco mais e as folhas agitam-se. O sol realça-a e sua beleza inunda tudo!
De repente o sorriso abre-se, mas de tal forma, com tamanho sentido que tudo se cristaliza, para que possamos assistir a tudo, para que possamos degustar tudo! As palavras falham-me por ora…

Continuo na ilusão de a conseguir confinar a verbos e adjectivações, continuo a enganar-me a pensar que a traduzo.
E pensar que a mim se entrega, que é a mim que dá a oportunidade de a ver. Assim, tão em si, tão franca e frágil, daquela forma como não se mostra a outrem!
Só me ocorre ama-la, pois todo o meu ser pensante se perde ao vê-la!

Respirar

Respirar, expiro para inspirar!
Por minha vontade prendia o ar, para voar!
Terei sempre que soprar para algo mover!
Ver algo a mexer, qualquer coisa a bater!

Por vontade só quero viver, lembrar
Andar por aí, venerar respirar
Sorver destes dias o ar, conseguir elevar
Respirar, só expiro, para inspirar,
De outra forma abortaria o ciclo!

Estar e bem!

Se só sonha quem dorme e só morre quem está vivo, eu estou morto e acordado, desenleado, erecto e atento, desperto e displicentemente mordaz!

Cansado

Consternado, mas no fundo maltratado. Retratado por mim mesmo da mesma forma que te retrato.
Sou um fraco, destrato-me maltrato-me e idolatro-me. Sou-me mais, sentindo-me menos e vivendo-me mais.
Um retrato, mas a cara não é minha, não existe, em boa verdade, uma cara…
Existe apenas o teu rosto, esse existe! Ele aparece-me naquela ausência de abraço e vontade de carinho! É o teu rosto, só tu o tens.
Cara, não te reconheço uma, rosto, sei-o bem e onde vai. Sempre que vejo, vejo-te. Incomoda-me tudo isto, porque me sou de menos sendo-me assim, sou-me só de menos, eu que me acho muito mais!
Mas o que é achar comparado com ser? Sou-me e sendo sou-te mais útil. Serás tu sem mim menor? Melhor, eu serei maior, melhor e mais intenso. Tudo isso, somente isso, mas tudo apenas na tua lembrança, pois no real, eu estarei pior por saber que te dói, que te maltrata.
Sorri-me só, canso-me de pensar! Canso-me de ser! Canso-me!

Vem ver o mar!

É-me triste ser-se assim, viver-se assim, pensar-se e nada se pensar de todo.
É-me indiferente ver o mar, notar que ele vai e volta, perceber a força que ele tem e depois ter de consciencializar-me que nunca serei tão persistente!
É-me fácil aqui ficar, distraído a ver o mar, prostrado a teorizar sobre o que me irá calhar!
É-me simples verbalizar, soltar a palavra, escrevinhar!
Mas não faz sentido ficar só comigo, é inconsequente, é displicente dizer coisas ao vento sabendo que ele as só partilha com o mar. Para isso chego eu! Entro eu e minhas letras, mar a dentro, entro eu!
Afogo-me nos meus pensamentos… que suicídio mais prematuro, que morte mais ridícula!
Hoje, observo de novo o mar e sorvo a água, esfrio a cabeça, mas isso não faz com que eu me esqueça, isso não faz, mesmo, com que eu me esqueça!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Deprimência de dias felizes.

Na infrutífera esperança de que os dias passem só um pouco mais rápido. Não existe nada além do amanhã, mas entristece-me a ideia de que, para além de hoje, exista muito pouco. Só queria aquele conforto que eu não sei qual é por nunca o ter conhecido, só queria aquele carinho que eu não reconheço, por nunca o ter degustado! Queria uma prova de que existe algo além daquilo que meu cérebro desmonta em peças que me agridem sempre que eu o faço. Quero o amor fraterno de pai e mãe! Sou eu, vosso filho, chamo-vos com delicadeza para não ter, novamente de vos ferir os ouvidos! Sou só eu, “aquilo” que geraram!

Os corpos já se perdem por entre um cosmos que não reconhecem. Quem conhece o quê, questiono-me e indigno-me. Nada se parece com nada e tudo parece meio confuso. Apesar de meio ser medido, sinto que me meço por outros meios que não os, suficientemente, medianos, para ser bem aceite na média!
Sou uma curva exponencial, aprendo a voar e no meu primeiro voo mostro que é inexistente a necessidade de aterrar! Não sei onde sequer se deve aterrar nave assim. Parece-me, daqui onde me encontro, que o sol seria o melhor lugar para guardar tudo, guardar tudo o que fui amealhando com a esperança de dias piores, sim, porque com toda esta veemência só pode ser uma esperança e não uma obrigação! Vivo a vida em função de não ter como viver a vida!
Sou um reformado letárgico enfiado em medicamentos, endorfinas e encontros com jovens que dizem saber o que eu tenho, eu tenho mais é idade, aquela de que tanto falam, a dita do juízo!
As palavras e onde o tempo me leva transferem-me de um, para outro lugar. São somente palavras, mas sou levado a acreditar em mais nada. A par disso o meu coração bate como palavras não descobrem. Palavras são ferramentas, os martelos e pregos de mentes em construção.