segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Leproso contemporâneo.

E que nem um dia sem fim, sem que se sele um trato fidedigno, prossegue-se o caminho. Arrastando com ele um repouso falso, ele prossegue seu trilho, deixando para trás um passado que não lhe agrada tanto.
Vai por onde quer sem se proibir, ou vedar a nada. Caminhando, esquece aquilo que o faz correr. Vai largando pelo seu trilho pedaços de si mesmo. Existe sempre algo mais, diz-se, existe sempre algo mais…
É no entanto frágil a barreira entre vontade e execução, ele vai quebrando-a. Sente-se incauto ao colocar pés ao caminho por esse grande mundo desconhecido que não é dele. Fica inerte às sensações, as suas emoções vão sendo camufladas de agressividade passiva que nem ele sabe muito bem como digerir ou contornar.
Fica-se pela ideia. Não tentou, ainda, voltar atrás, até porque parece que voltar atrás é sempre um grande passo rumo á desistência e ele, por vários motivos, não pretende baixar os braços. Vão-se seguindo teorias, histórias e outras tantas constatações sobre que rumo seria o certo, não fosse ele quem é! Imaginando os dias passarem com mais brandura, ele vai-se mantendo em pé, dando o seu peito, ferido e já despedaçado, a todo o tipo de balas que o tentam alvejar.
Fica assim, num espaço perdido de tempo, no seu espaço! A dor evade-se dele mesmo, propaga-se nesse mesmo espaço, mas com a ausência de tempo, sabe-se lá quando é que ele vai deixar de a sentir!
Chegará o dia de reunir as peças, chegará o dia em que voltará a ser!

No segundo em que me sinto!



(ilustração Andreia P)

E é então que uma mistura de palavras que bafejam meus sentidos. Uma mescla tão nossa, que de se ligar ao mundo, ela transforma tudo! Memorizo um segundo, mas um segundo é já tão cheio e pleno de emoções, que não tenho memória suficiente para armazena-lo. É demais, o viver é demais! Oculto-me, escondo-me, nego-me a isto ou aquilo, mas deixo-me ir, inocente e frágil, por um caminho não visitado antes. Exploro no meu corpo as mazelas de outros tempos e percebo que elas não são já mazelas, mas sim características minhas. Sou uma pessoa caracterizada por um passado vivido a custo. Que custo é esse? Que coisa tão forçada passei eu? Por vezes sinto-me minúsculo por pensar que a minha vida é sôfrega, por pensar que eu sou tosco e frágil. Mais forte do que pensas, repete-me alguém insistentemente… Mas todos sabemos, só ouvimos o que queremos, quando queremos. É impressionante por vezes a vontade que tenho de me mandar no escuro, no esquecimento, só para ser quem sou, sem me preocupar com quem eu seria se me esforçasse mais um pouco!
Faltam-me as palavras para falar sobre isto, por mais que tente, parece existir um vácuo em mim, uma “pseudo-censura” que me impede de escrever sobre o agora, sobre o que passo e vivo, sobre o que sinto e sonho! Tenho um segredo, um segredo tão meu, tão nosso, que nem sei com quem partilha-lo! Estou cansado de palavras pelos vistos, elas não me parecem suprir a necessidade que tenho de gritar ao mundo, elas parecem-me vãs…
Toda a palavra é vã para quem não quer falar e pelos vistos, eu não quero falar.
Sinto-me dominado por uma vontade de me calar, uma vontade de não comentar nada e só apreciar o agora, sem julgamentos, sem reflexões, sem medos. Sinto-me sem medo e completamente confiante, em tudo, em ti! E és tu a pessoa em que eu confio, és tu o algo em que me largo para poder descansar, és tu que eu deixo que me carregue um pouco, preciso de ser transportado, preciso de ser guiado, para lá, para longe. Leva-me!
Guio-me em ti e sou só um, sou só eu, finalmente sou só eu!
Estou dentro do mundo, mas sinto que o observo… é bom!

És livre para me guiar por entre o mundo, por entre as emoções e sensações…

Olhas meus lábios.

Regozijo o meu ser com teus gestos e canduras. É óptimo quando te afiguras bela, ou seja, sempre! Os teus olhos aquecem-me, liberam um sorriso meu, um sorriso nosso! Fico brandamente etéreo, sinto-me vaguear pelo teu coração e é lá que me sinto verdadeiramente em casa. O teu sorriso congela-me qualquer espécie de nervosismo. Sinto-me crédulo, sinto-me confiante, sinto-me um eu que esqueci já faz tempo. Sempre te falei que percorro o teu rosto com meu olhar, mas na verdade é falso, a beleza do teu semblante é que me atropela sempre que frente a mim se mostra. Fico frágil, cristalizado e é aí, nesse momento em que me quebras por inteiro que me vês verdadeiramente, é nesse momento que sou eu!
E eu olho e falo, sinto e imagino. Sinto-me pleno, em busca de todos os algos a que consigo estender a mão, afim de te tentar ter mais em mim, de te degustar mais uns instantes. Estou em ti, talvez por isso me sinta tão complacente com teus defeitos, talvez por isso me sinta tão em casa, tão eu!
Olho os teus olhos novamente, eles levam-me embora. Guardam-me numa pequena caixa onde me admiram com um ar tão seu, tão honesto e pueril! E eu ali permaneço, embevecido pela forma como me olhas e me tentas entender. Não passa muito tempo, até que entendes que não é preciso muito para me compreenderes como pessoa, sou um pouco de ti, ou então, de mim faz parte um pouco de ti… é confuso, é uma mescla muito interligada que nos descreve, que nos difere. Por vezes parece-me que somos diferentes por sermos tão semelhantes.
E fico aqui, sozinho num quarto teu, olhando-te em tudo o que me rodeia. Falta-me a vontade de ir embora, falta-me o desejo de me desprender desta nova parte de mim!
Apaixono-me por tudo em ti e fico assim, longe…

Serve-me um eu!

Não posso falar, não posso ouvir, não posso esquecer, não posso lembrar. Preso numa atitude de marasmo, caso contrário, consumo-me, consumo quem me quer consumir e provoco decepção!
Idealizando-me num mundo perfeito, imagino-me sem boca, sem cordas vocais, sem reflexão e sem meu raciocínio. Porque será que a procura, a definição se torna, para mim, sempre mais importante do que a vivência?
Não se trata de inteligência, não se trata de vontade de conhecimento, trata-se de uma vontade de mostrar a toda a gente que eu não estou errado, mais do que me aperceber que estou bem.
Sensações mistas, emoções tríplices, sofrimentos multiplicados por mil! Dor na reflexão, dor na audição, dor naquilo que penso e falo. Busca pela simplicidade…
Buscar pelo não buscar nada! Buscar pelo me preencher, procurar mais, mas sem definir, sem rotular, sem me martirizar em pensamentos de sofreguidão que me levam sempre ao mesmo lugar, o novo início que tanto temo!
Falo que não quero finais, que me quero calmo, que me quero em mim e bem. Tudo discurso ilusório, tudo um discurso de puro onanismo! Uma masturbação de mim, para mim, comigo! Um pleonasmo egocêntrico!
Olho-te e já te sinto a ir embora, desapontada, decepcionada, por um lado magoada, por outro, consciente. Não te consigo manter comigo, não me compete. Tu saberás melhor que eu o que consegues, ou não, suportar…
Queria só ter-me mantido naquele transito lindo que nos guiava um para o outro, aquele trânsito que simplesmente corria muito rápido para que repousa-se-mos na duvida e não no discurso escolástico de explanação do outro.
Não te quero conhecer, eu conheci-te! Parece nunca bastar! Nada parece nunca bastar! Basta! Parto para dentro de mim sempre que me tentam trazer cá para fora. Parece que não quero evoluir, digo que sim, que o quero fazer, mas tenho medo… tanto medo… medo disso tudo! Medo da desilusão, medo do outro, medo da análise do outro. Medo de que o outro esteja certo. Medo de ter de lidar comigo. Não quero ter de lidar comigo. Não quero ter de mudar, mas sei que o tenho de fazer!
Nunca será suficiente eu repetir tudo o que eu tenho de fazer. Nunca será suficiente simplesmente “estar”.
Eu estou errado!

Sentindo em vários sentidos.

Depara-se com a perplexidade da vida um homem. Algo o deixa assim, atónito. Cruza a estrada, num percurso solitário, cruza uma e outra vez a estrada. A sua mente em reviravoltas, sente-se perdida. O homem mente, por isso sua mente se atormenta! Fica ali por momentos, parado num tempo só dele. Enrosca-se em memórias e cruza novamente a estrada…
Quem o visse, pensaria que estava a fugir. No entanto, este homem está sozinho, ao longo da vida não se apegou de ninguém, de quem pudesse evadir-se agora! Sombria, a sua cara navega num espaço que mesmo ele estranha! Sente quem o observa, que este homem se escapa, por entre cruzamentos e várias paragens, este homem escapa-se…
Escapa-se de tudo, de todas as responsabilidades, de todos os hábitos e costumes, simplesmente, ele escapa-se. Para onde vai, ninguém pretende saber, parece ser suficiente para toda a gente saber apenas que tal figura se ausenta do espaço que eles ocupam. Mesquinho grupo de pessoas com medo. Por verem um homem mais provocador ao espaço que ocupa, pensam logo em coisas más. É só hum homem, que mal é que ele poderá fazer? Deixem-no ficar, digo eu! Deixem-no ficar!
Mas era ele quem não queria, nada teria a ver com aquelas pessoas, com aquele meio. Queria ausentar-se e essa era sua vontade, nada mais iria ser relevante! Segundos depois escuta-se um som, um som de despedia, teria sido ele a sair, a bater a porta do tempo e a vaguear para outro lugar.
Falam-me de morte hoje, mas eu não sei…
Sinto que aquele homem, enrugado pelo tempo, com aquela almofada debaixo do braço, era nada mais nada menos que um homem que necessitava de um pouco de paz.
Só paz…

Levando para fora o interior de ti...

Ausente na memória de procurar o ser que sou, deixo-me ir no eu que navega sem de si mesmo se questionar que o é!
Levando para o mundo os dias breves em que olhar o sol basta, carregando para todos, o simples que é ser-se!
Revelando e rebelando-se, mostra a si mesmo a verdade, mas acostumado a um passado bem presente em si, não se acredita, vive mesclando as verdades sábias, com as mais impuras e sujas mentiras que se conta, para dormir melhor á noite. Só para se sentir parte de mais um grupo de indivíduos completamente diferentes.
Complexa a imensidão do raciocínio e os mal-entendidos que ele nos provoca, parece que por vezes nos esquecemos do quão física é a dor e belo o quanto é o amor infundado e irradiante em tudo, sem que dele questionemos ou duvidemos!
Ficamos parados num tempo de “tecnologias” ideias e conceitos que não passam disso mesmo, ideias, conceitos e “tecnologias”.
Paro por vezes a pensar se um dia, um dia longínquo vai trazer a imagem de uma ideia que alimente um corpo de amor e risos.
Tecnologia ideal? Aquela que me permita viver sem ela!

Assim. Ficando!



(ilustração andreia P)

No meu mundo exploro uma ideia, um conceito, uma forma de realizar um algo que me atrai muito, que me melhora! Aperfeiçoo a busca da ideia, melhoro o conceito. Busco palavras novas e tento sempre idealizar como será o objecto final, o plano do concreto. Realizo a ideia, tenho-a aqui, mesmo na minha frente, vejo-a de todos os ângulos, procuro pensar em ângulos que, normalmente, não observaria. Idealizo mais um pouco a ideia, perdoando-se a redundância, dir-se-ia que almejo a perfeição. No entanto, não fico contente, coloco ainda mais entraves, não quero algo que seja apenas, “um algo”, ao idealizar a perfeição, pretendo atingi-la e, sem “humildades”, melhorá-la. Estóico, forço-me ao falhanço e assim continuo... tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e erro...
O tempo passa e assim vou ficando, na tentativa e no erro.
O erro transforma-se em tentativa e a tentativa em erro, vou encontrando melhoramentos, mas a perfeição é ainda um “alvo a abater”. Prossigo... perseverança e persistência, digo-me! Repito-o tantas vezes, quantas as da tentativa e do erro. O erro fortifica-me, paralelamente, torna-me mais exigente. O erro não me dá sensação de fracasso, pelo contrário, oferece-me inteligência. Nunca caindo no mesmo erro, aquando de cada tentativa, reinvento-me, desconfio e re-descortino o mundo á minha volta, altero tudo, mas não repito tentativas!
Fico assim!
O mundo á minha volta vai-se mudando. A cada tentativa minha, tudo se vai alterando e consequentemente, vou ficando outro, as minhas formulas ficam, a cada passo, mais subtis nas suas peculiaridades. Não se esgotam as hipóteses de tentativa, o “laboratório” continua apetrechado de itens novos, de novos erros á espera de acontecer. Ao mesmo tempo, torna-se, para mim, nítido que tudo vai ficando mais coeso, mais uniforme. Faz tempo que existem erros que já não tenho a capacidade de cometer, longe vão os dias dos erros e tentativas pouco diferentes.
Evoluo e fico assim, vou ficando!
Pode ser que o tempo me ensine muita coisa, mas eu também vou mostrando ao tempo, que estou aqui para ficar, digo-lhe até, por vezes, que ele não me vai mudar, erro...
Sou perseverante, tanto assim que me fui tornando teimoso, persistente em relação aos dados concretos que fui adquirindo nas minhas “experiências”. Não sou capaz de dizer que não sei ainda nada, pelo contrário, sei o suficiente para questionar o que julgo, de resposta, ser já possuidor. Busco a questão das coisas, não a resposta. A idéia de que vou parar de errar por meu percurso, onde repito, vou ficando assim, afugenta qualquer tentativa!
Fico aqui, assim, a bater na parede da duvida, sempre ricocheteando pelo que me é desconhecido.
Nada disto pretende negar o oposto do que entendem ao lerem-me, pois se assim for interpretado, erro nesta “tentativa” de me mostrar. Para o caso de em mim lerem esse erro, afianço-vos, facto tal não me é estranho, talvez por isso eu aqui esteja, escrevendo, na execução da tentativa de me transmitir para vocês.
E é assim que eu fico, ou pelo menos, vou ficando...