domingo, 20 de julho de 2008

"voyerismo" para romanticos.



(ilustração andreia P)


Olho-os ali, olhando-se, tocam-se, não sentindo que me tocam com sua vida. Será que se questionam que os escrevo?
Ele massaja o corpo dela, enquanto ela, embevecida, se distrai com a perspectiva de plenitude. Ambos param e beijam-se. Parou o mundo para eles…
Tudo se tornou irrisório para os dois, no momento em que doces carícias e olhares os guiaram á candura de um terno beijo que os derrete. Pausam no beijo, afastam-se, apenas o suficiente, para que consigam irradiar o amor que têm um pelo outro, afim que o outro o absorva…
Enquanto isso, eu escrevo.
Agora é ela quem atrai os lábios dele aos dela, com um gesto que impressiona até o mais libidinoso dos amantes, que com tal gesto se imiscui de toda a lascívia e se prende somente na sensação emocional que é ser-se amado.
Continuam a beijar-se, ele abraça-a e ela promete-lhe. O quê? Só eles sabem, eu apenas os observava.

Ele gordo, bonacheirão e possuidor de uma aura carismática que só os gordos têm. Ela, simpática e anafada de uma magreza doentia que nos parece dar a impressão que uma palavra mais rude da parte dele decerto a destruiria.
Ambos na mesa, trocando palavras, risos, olhares de desconfiança e animação.
A aliança dourada dele e a notória disponibilidade dela a ignorar esse facto, fazem adivinhar que esse detalhe dourado é algo que pouco importa a ambos..
Ele negro e fumador, ela loira falsa, e com os calcanhares envergando uns ténis numa posição um tanto infantil e indefesa. Uns nítidos 40 anos para o calmeirão e uns parcos 20 para a indefesa. Mesas ao redor olham, com mais descaramento ainda que eu, que os olho para os escrever. Eles parecem alheios e adaptados a esses olhares, pelo á vontade deles não é a primeira vez que se encontram assim.
A cada profundo trago no cigarro dele, ela enrola o cabelo loiro no indicador e curva-se afim de sugar da palhinha que termina no copinho de sprite.
Parecem-me bem confortáveis e á vontade, os julgamentos externos não os impedem de viver o “seu” momento.
Será que o mesmo pode ser dito dos olhares de quem os julgam?



Ela sozinha, mesmo aqui do meu lado e ele, ele imagino-o estando do outro lado do mundo.
O “garçon” abeira-se dela e ela como que se espanta, num pequeno espasmo soluçado de quem nitidamente não está acostumada a estar sozinha. Pede um suco de abacaxi, a medo, novamente se refugia nela mesma. Parece estar longe, com ele. Subitamente vira-se e pede um cigarro, solta um sorriso quente depois disso. “Com certeza” digo eu, num tom de quem não quer dar a entender que a observara todo este tempo. Pega no cigarro, volta á posição e lentamente curva-se novamente… “tem isqueiro?” pergunta-me ela num tom que revela que ela não quer mais a solidão.
Acendo o cigarro dela e ela agradece ao mesmo tempo que se volta para a posição original. Nesse momento deixei de escrever, tudo o que escrevesse, poderia ter-se tornado pessoal.

1 comentário:

O Rapé disse...

Tu és mas é tarado!!! :P

(já vi que estás pelo acordo ortográfico, meu pai)

abraço.