sexta-feira, 4 de julho de 2008

Quando o momento não basta.





Fazia dias que eu não a via. Ela tinha passado uns tempos lá em casa, mas tinha saído sem aviso. A principio preocupei-me, mas rapidamente percebi que esse era seu caminho, esse era o seu momento. Passei uns dias vagueando pelas memórias e pelos odores que ela deixou. Principalmente passeei pelos pensamentos que trocámos. Pensamentos simples, encontrar algo, viver. Era só isso que parecia importar. Os dias eram tão calmos, tão cheios de coisas que tinha sempre de vir mais um dia, para que nada fosse desperdiçado. Como tal, os dias foram-se sucedendo sem que o sentíssemos. Estávamos todos procurando, todos procurando sem o sabermos. Longe, lá longe, no espaço onde julgamos guardar as conclusões, tudo se ia revezando, um dia uma certeza, outro dia uma outra. Tudo é mutável, dizia alguém no fundo do hall de entrada, estranho lugar esse, para conversas sobre o tudo…
É verdade, conluia o “quase-bêbado” anfitrião, é verdade o quê? Questionava-mos nós, meio perdidos noutras conversas e pensamentos que aquelas que nosso amigo, “quase-bêbado” , parecia ter com ele mesmo. E então ele respondia, naquele estilo “quase-sóbrio” de quem está “quase-bêbado”, a verdade, a verdade é que tudo está aqui, tudo o que ali está, está aqui! Fingíamo-nos desentendidos, desculpava-mos tal discurso com ingestão de tais bebidas que ele tomara no decorrer da noite e da companhia. Mas a verdade é que tal discurso toca, quando a situação assim o permite. A ela terá tocado decerto! Ela partiu nesse escorrer de noite…
Tudo o que restou na manhã seguinte, foi a garrafa vazia que a noite despejou e o odor que ela se permitiu a deixar no hall que iniciou todas as tropelias a que nos sujeitamos.
Mas é bom, agora que o penso e falo, é bom. Não sei porquê, mas penso que o pendor da despedida está no facto de a presença ter sido tão boa, tão útil e enriquecedora. Agradeço agora o facto de ela não me ter avisado, foi difícil senti-la ir, mas seria mais complicado ainda retê-la. Apesar de tudo o que “aqui está”, estar também ali, se não nos movermos, nunca teremos a certeza. Admiro-a pela determinação e garra, de se deixar dissolver no momento em que a decisão se toma. Aprendo muito com ela sempre que a volto a ver nas memórias em que a guardo. O mais estranho no meio de isto tudo é que eu era o anfitrião, tenho medo por vezes que tudo seja imaginação minha e que o momento para sair do meu “hall” tenha chegado, tenho de me decidir a partir para ver o que “ali” está! Será que ela lá estará? Esperando que acorde e viva meu sonho com ela? Será que ela é real? Será que o vou saber? Incerto, «sonho e imaginação ligam-se que nem um encontro entre átomos que explodem sobre a pressão de se ligarem» . Vou indo, quero explodir o meu sonho com a minha imaginação…

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