sábado, 12 de julho de 2008

O "Chefe" poeta.


(ilustração andreia P)


Estava solto num mundo belo, prendendo-se aquilo que de melhor encontrava para transmitir. Cantava a vida com seus olhos e deixava-a compor, nota a nota, a sua musica. Tudo era extraordinário para ele, não se entristecia por nada. Via os dias chegar e degustava, de cada um deles, as especiarias que lhe aprimoravam o paladar. Era um “gourmet “dos dias.
Traduzia o sabor de manhãs, tardes e noites, em palavras saborosas que os outros comiam e choravam por mais. Apelidavam-no de “chefe” poeta, e ele, sem colocar entraves, oferecia mais um prato verbal. Versejava sensualidade com aroma de ostras, apimentava sensações de alegria com forte gosto a caril, chegava até a relaxar com especiarias asiáticas. Tudo era um maravilhoso prato falante, até seus pontos finais com gosto de café e fumo de cigarrilha. Era um felizardo e falar o que outro ouvia, era tudo o que lhe bastava.
Mas nem tudo se resume a poesias ou cantigas, tudo o que é claro, esconde sua sombra e penumbra…
Não tenho palavras para falar o que calo! Quase todas se esgotaram, ou perderam significância. A poeira que se solta por entre frases sem sentido, faz com que o discurso perca viabilidade. A mentira é tudo o que sobeja na boca do velho falador. E ele fala, torce o próprio nariz a si mesmo a cada barbaridade nefasta que solta, sozinho no seu mundo. Ele sabe que o seu negrume de indignação fútil, esbranquiçou a calejada escuridão da mentira. Nada sente ao dizer que se sente frívolo e perdido num mundo, cada vez mais, feito de atitudes narcísicas e hipócritas. Mesmo ele, que antes apregoava em todo o lado a verdade e virtude, se deu como vencido no árduo esforço de despertar sensações. A poesia despediu-se, falava ele em tom de gozo. Ela foi-se embora, só porque não se sentia respeitada, continuava ele…
Quase se lhe via as lágrimas de areia seca e malcheirosa rebolando pelo rosto escamado e amarelecido. É triste a vida de um homem que se dá conta de estar vazio do tudo, só de tanto se tentar dar! Esgotei o meu sopro e agora resta-me reter a respiração afim de que nada se escape ou invada meu ser já morto e infeccioso! Sou o meu mal, tendo sido o bem do mundo! E ele continuava, infindavelmente, repetindo palavras mortas e rebolando por seus fantasmas. Era um homem bom, que simplesmente havia desistido de esconder seu lado desistente. Rendeu-se ás suas próprias evidências e não se esforçou sequer, para tentar camufla-las. Era, no fim de tudo, um homem nobre, nunca deixou de o ser.
Não fica pena ou pesar, apenas saudade de pratos quentes e deliciosos…

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