domingo, 20 de julho de 2008

Indelével transparência




(ilustração andreia P)


E é por entre momentos de silencio, em que apenas uma palavra se escapa, que o sossego começa a mexer com o nosso próprio intelecto. Começamos a ficar atados nas nossas próprias lembranças e tudo aquilo que vemos, nos parece muito pouco verdadeiro. Talvez tenhamos a curiosidade de ver como o mundo gira sem nós, talvez seja um qualquer lado negro que temos, mas que não queremos ver, pois ele faz-nos sentir que temos mais que fazer do que sentir que existe uma vida além de nós.
Queremos ter a sensação, que nos subtraímos de um todo ao qual nós, por intuição, sentimos que não pertencemos. É apenas o dia a vir ter connosco e a dizer-nos que a nossa noite está prestes...
Nesse tipo de instante, em que poucas coisas se fazem, para além de lembrar o que éramos e como gostaríamos de ser, é que nos sentimos um pouco sozinhos com a memoria que de nós mesmo temos.
Somos apenas uma memória que esquecemos de nós mesmos. Nada nos satisfaz, nem a realidade nem o sonho, nem o dia nem a noite. Estamos simplesmente a tentar encontrar um “limite” que nos deixe livres o suficiente, mas que por outro lado nos prenda, pois nós, incautos de razão, precisamos sempre de barreiras, quanto mais não seja para que nos apercebamos que o “tudo” não tem fim e o “nós” tem! A esperança será sempre chegarmos á conclusão que continuamos a batalhar com o que temos no nosso interior, sem que dessa batalha reze qualquer tipo de historia ou memoria. Somos uns espectros viajantes que nos encontramos em constante mutação e ascensão. Queria continuar-me por dentro do tempo, tão dentro do tempo, que o tempo deixasse de ter um friso temporal e passasse a ser só uma expressão daquilo que eu sinto que ele seria se eu não me importasse com ele. Só porque me são duros, os dias em que não durmo, por sentir que ele tem mais que fazer do que me sentir logo ali, do seu lado, no seu encalço.
Sou só um momento no espaço, e no tempo permito-me a ser apenas um momento…
Quero acrescentar palavras aquelas que disse acima, quero dizer que o segredo para a vida, será sempre algo mais do que a morte, será sempre algo mais que sorte ou azar, será sempre algo mais! Aquela que será a grande questão é se teremos a capacidade de confiarmos que a nossa hipotética falta de hombridade na hora de assumirmos a nossa pequenez, fará com que erremos sempre em tudo, ou quase tudo o que fazemos.
Somos apenas a sombra de um erro que está para vir. Não seremos nunca, muito mais do que isso… um erro.
Poderá eventualmente dizer-se que tivemos a capacidade de evoluirmos para reflectir sobre essa nossa condição, mas no final, apenas o nosso erro de começarmos a reflectir, fez com que a maior parte dos problemas surgisse. A nossa tacanhez tornou-nos grandes no momento de sentirmos o pendor da mão do destino a bafejar-nos o rosto com o mal dos nossos erros.
Somos uma matéria sem fundamento, um dia inglório numa vida sem muito que se lhe diga. Somos apenas humanos, mas ao pensarmos isso, sabemos instantaneamente que erramos, única e exclusivamente porque nos dedicamos á explosão de nós mesmos, na nossa própria memoria.
O tempo permite-nos pensar que a realidade poderá ser, eventualmente, uma metafísica do sonho, pode ser apenas um espectro daquilo que sonhamos e por consequência uma ficção por nós idealizada pela sede de nos perdermos na busca do intuito de cá estarmos a fazer alguma coisa. Por consequência, somos apenas um sonho de nós mesmos e por esse mesmo motivo, a nossa realidade é ficcionada por nós.
Imagino-nos daqui a muitos anos a “descobrir-mos” que nós nunca existimos e a ficarmos muito surpreendidos com essa informação. Diremos que não, que não é possível, que a verdade é que nós estivemos só um pouco enganados, mas que dentro em breve tudo ficará bem e que sempre tivemos razão quando dissemos que éramos o “algo” mais evoluído do mundo.
Risadas daremos de quem provou que éramos apenas um sonho e esse homem, aquele que foi menosprezado e enxovalhado, voltará para sua escura tumba mental e cessará de se sonhar, findando-se ele assim numa realidade factual.

No entanto, pode ser que eu esteja enganado e pode ser que seja eu quem está a viver um sonho. Seja qual das hipóteses for, pouco me importa, estou bem como estou. Estou pleno e seguro que tenho um algo meu que será muito difícil de menosprezar ou repudiar.

Eu penso e encerro-me nessa vivência aguardando por mais mostras cativantes de reflexão e evolução.

1 comentário:

Ana disse...

estavas mesmo inspirado. como eu te percebo

besitos