segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Leproso contemporâneo.

E que nem um dia sem fim, sem que se sele um trato fidedigno, prossegue-se o caminho. Arrastando com ele um repouso falso, ele prossegue seu trilho, deixando para trás um passado que não lhe agrada tanto.
Vai por onde quer sem se proibir, ou vedar a nada. Caminhando, esquece aquilo que o faz correr. Vai largando pelo seu trilho pedaços de si mesmo. Existe sempre algo mais, diz-se, existe sempre algo mais…
É no entanto frágil a barreira entre vontade e execução, ele vai quebrando-a. Sente-se incauto ao colocar pés ao caminho por esse grande mundo desconhecido que não é dele. Fica inerte às sensações, as suas emoções vão sendo camufladas de agressividade passiva que nem ele sabe muito bem como digerir ou contornar.
Fica-se pela ideia. Não tentou, ainda, voltar atrás, até porque parece que voltar atrás é sempre um grande passo rumo á desistência e ele, por vários motivos, não pretende baixar os braços. Vão-se seguindo teorias, histórias e outras tantas constatações sobre que rumo seria o certo, não fosse ele quem é! Imaginando os dias passarem com mais brandura, ele vai-se mantendo em pé, dando o seu peito, ferido e já despedaçado, a todo o tipo de balas que o tentam alvejar.
Fica assim, num espaço perdido de tempo, no seu espaço! A dor evade-se dele mesmo, propaga-se nesse mesmo espaço, mas com a ausência de tempo, sabe-se lá quando é que ele vai deixar de a sentir!
Chegará o dia de reunir as peças, chegará o dia em que voltará a ser!

No segundo em que me sinto!



(ilustração Andreia P)

E é então que uma mistura de palavras que bafejam meus sentidos. Uma mescla tão nossa, que de se ligar ao mundo, ela transforma tudo! Memorizo um segundo, mas um segundo é já tão cheio e pleno de emoções, que não tenho memória suficiente para armazena-lo. É demais, o viver é demais! Oculto-me, escondo-me, nego-me a isto ou aquilo, mas deixo-me ir, inocente e frágil, por um caminho não visitado antes. Exploro no meu corpo as mazelas de outros tempos e percebo que elas não são já mazelas, mas sim características minhas. Sou uma pessoa caracterizada por um passado vivido a custo. Que custo é esse? Que coisa tão forçada passei eu? Por vezes sinto-me minúsculo por pensar que a minha vida é sôfrega, por pensar que eu sou tosco e frágil. Mais forte do que pensas, repete-me alguém insistentemente… Mas todos sabemos, só ouvimos o que queremos, quando queremos. É impressionante por vezes a vontade que tenho de me mandar no escuro, no esquecimento, só para ser quem sou, sem me preocupar com quem eu seria se me esforçasse mais um pouco!
Faltam-me as palavras para falar sobre isto, por mais que tente, parece existir um vácuo em mim, uma “pseudo-censura” que me impede de escrever sobre o agora, sobre o que passo e vivo, sobre o que sinto e sonho! Tenho um segredo, um segredo tão meu, tão nosso, que nem sei com quem partilha-lo! Estou cansado de palavras pelos vistos, elas não me parecem suprir a necessidade que tenho de gritar ao mundo, elas parecem-me vãs…
Toda a palavra é vã para quem não quer falar e pelos vistos, eu não quero falar.
Sinto-me dominado por uma vontade de me calar, uma vontade de não comentar nada e só apreciar o agora, sem julgamentos, sem reflexões, sem medos. Sinto-me sem medo e completamente confiante, em tudo, em ti! E és tu a pessoa em que eu confio, és tu o algo em que me largo para poder descansar, és tu que eu deixo que me carregue um pouco, preciso de ser transportado, preciso de ser guiado, para lá, para longe. Leva-me!
Guio-me em ti e sou só um, sou só eu, finalmente sou só eu!
Estou dentro do mundo, mas sinto que o observo… é bom!

És livre para me guiar por entre o mundo, por entre as emoções e sensações…

Olhas meus lábios.

Regozijo o meu ser com teus gestos e canduras. É óptimo quando te afiguras bela, ou seja, sempre! Os teus olhos aquecem-me, liberam um sorriso meu, um sorriso nosso! Fico brandamente etéreo, sinto-me vaguear pelo teu coração e é lá que me sinto verdadeiramente em casa. O teu sorriso congela-me qualquer espécie de nervosismo. Sinto-me crédulo, sinto-me confiante, sinto-me um eu que esqueci já faz tempo. Sempre te falei que percorro o teu rosto com meu olhar, mas na verdade é falso, a beleza do teu semblante é que me atropela sempre que frente a mim se mostra. Fico frágil, cristalizado e é aí, nesse momento em que me quebras por inteiro que me vês verdadeiramente, é nesse momento que sou eu!
E eu olho e falo, sinto e imagino. Sinto-me pleno, em busca de todos os algos a que consigo estender a mão, afim de te tentar ter mais em mim, de te degustar mais uns instantes. Estou em ti, talvez por isso me sinta tão complacente com teus defeitos, talvez por isso me sinta tão em casa, tão eu!
Olho os teus olhos novamente, eles levam-me embora. Guardam-me numa pequena caixa onde me admiram com um ar tão seu, tão honesto e pueril! E eu ali permaneço, embevecido pela forma como me olhas e me tentas entender. Não passa muito tempo, até que entendes que não é preciso muito para me compreenderes como pessoa, sou um pouco de ti, ou então, de mim faz parte um pouco de ti… é confuso, é uma mescla muito interligada que nos descreve, que nos difere. Por vezes parece-me que somos diferentes por sermos tão semelhantes.
E fico aqui, sozinho num quarto teu, olhando-te em tudo o que me rodeia. Falta-me a vontade de ir embora, falta-me o desejo de me desprender desta nova parte de mim!
Apaixono-me por tudo em ti e fico assim, longe…

Serve-me um eu!

Não posso falar, não posso ouvir, não posso esquecer, não posso lembrar. Preso numa atitude de marasmo, caso contrário, consumo-me, consumo quem me quer consumir e provoco decepção!
Idealizando-me num mundo perfeito, imagino-me sem boca, sem cordas vocais, sem reflexão e sem meu raciocínio. Porque será que a procura, a definição se torna, para mim, sempre mais importante do que a vivência?
Não se trata de inteligência, não se trata de vontade de conhecimento, trata-se de uma vontade de mostrar a toda a gente que eu não estou errado, mais do que me aperceber que estou bem.
Sensações mistas, emoções tríplices, sofrimentos multiplicados por mil! Dor na reflexão, dor na audição, dor naquilo que penso e falo. Busca pela simplicidade…
Buscar pelo não buscar nada! Buscar pelo me preencher, procurar mais, mas sem definir, sem rotular, sem me martirizar em pensamentos de sofreguidão que me levam sempre ao mesmo lugar, o novo início que tanto temo!
Falo que não quero finais, que me quero calmo, que me quero em mim e bem. Tudo discurso ilusório, tudo um discurso de puro onanismo! Uma masturbação de mim, para mim, comigo! Um pleonasmo egocêntrico!
Olho-te e já te sinto a ir embora, desapontada, decepcionada, por um lado magoada, por outro, consciente. Não te consigo manter comigo, não me compete. Tu saberás melhor que eu o que consegues, ou não, suportar…
Queria só ter-me mantido naquele transito lindo que nos guiava um para o outro, aquele trânsito que simplesmente corria muito rápido para que repousa-se-mos na duvida e não no discurso escolástico de explanação do outro.
Não te quero conhecer, eu conheci-te! Parece nunca bastar! Nada parece nunca bastar! Basta! Parto para dentro de mim sempre que me tentam trazer cá para fora. Parece que não quero evoluir, digo que sim, que o quero fazer, mas tenho medo… tanto medo… medo disso tudo! Medo da desilusão, medo do outro, medo da análise do outro. Medo de que o outro esteja certo. Medo de ter de lidar comigo. Não quero ter de lidar comigo. Não quero ter de mudar, mas sei que o tenho de fazer!
Nunca será suficiente eu repetir tudo o que eu tenho de fazer. Nunca será suficiente simplesmente “estar”.
Eu estou errado!

Sentindo em vários sentidos.

Depara-se com a perplexidade da vida um homem. Algo o deixa assim, atónito. Cruza a estrada, num percurso solitário, cruza uma e outra vez a estrada. A sua mente em reviravoltas, sente-se perdida. O homem mente, por isso sua mente se atormenta! Fica ali por momentos, parado num tempo só dele. Enrosca-se em memórias e cruza novamente a estrada…
Quem o visse, pensaria que estava a fugir. No entanto, este homem está sozinho, ao longo da vida não se apegou de ninguém, de quem pudesse evadir-se agora! Sombria, a sua cara navega num espaço que mesmo ele estranha! Sente quem o observa, que este homem se escapa, por entre cruzamentos e várias paragens, este homem escapa-se…
Escapa-se de tudo, de todas as responsabilidades, de todos os hábitos e costumes, simplesmente, ele escapa-se. Para onde vai, ninguém pretende saber, parece ser suficiente para toda a gente saber apenas que tal figura se ausenta do espaço que eles ocupam. Mesquinho grupo de pessoas com medo. Por verem um homem mais provocador ao espaço que ocupa, pensam logo em coisas más. É só hum homem, que mal é que ele poderá fazer? Deixem-no ficar, digo eu! Deixem-no ficar!
Mas era ele quem não queria, nada teria a ver com aquelas pessoas, com aquele meio. Queria ausentar-se e essa era sua vontade, nada mais iria ser relevante! Segundos depois escuta-se um som, um som de despedia, teria sido ele a sair, a bater a porta do tempo e a vaguear para outro lugar.
Falam-me de morte hoje, mas eu não sei…
Sinto que aquele homem, enrugado pelo tempo, com aquela almofada debaixo do braço, era nada mais nada menos que um homem que necessitava de um pouco de paz.
Só paz…

Levando para fora o interior de ti...

Ausente na memória de procurar o ser que sou, deixo-me ir no eu que navega sem de si mesmo se questionar que o é!
Levando para o mundo os dias breves em que olhar o sol basta, carregando para todos, o simples que é ser-se!
Revelando e rebelando-se, mostra a si mesmo a verdade, mas acostumado a um passado bem presente em si, não se acredita, vive mesclando as verdades sábias, com as mais impuras e sujas mentiras que se conta, para dormir melhor á noite. Só para se sentir parte de mais um grupo de indivíduos completamente diferentes.
Complexa a imensidão do raciocínio e os mal-entendidos que ele nos provoca, parece que por vezes nos esquecemos do quão física é a dor e belo o quanto é o amor infundado e irradiante em tudo, sem que dele questionemos ou duvidemos!
Ficamos parados num tempo de “tecnologias” ideias e conceitos que não passam disso mesmo, ideias, conceitos e “tecnologias”.
Paro por vezes a pensar se um dia, um dia longínquo vai trazer a imagem de uma ideia que alimente um corpo de amor e risos.
Tecnologia ideal? Aquela que me permita viver sem ela!

Assim. Ficando!



(ilustração andreia P)

No meu mundo exploro uma ideia, um conceito, uma forma de realizar um algo que me atrai muito, que me melhora! Aperfeiçoo a busca da ideia, melhoro o conceito. Busco palavras novas e tento sempre idealizar como será o objecto final, o plano do concreto. Realizo a ideia, tenho-a aqui, mesmo na minha frente, vejo-a de todos os ângulos, procuro pensar em ângulos que, normalmente, não observaria. Idealizo mais um pouco a ideia, perdoando-se a redundância, dir-se-ia que almejo a perfeição. No entanto, não fico contente, coloco ainda mais entraves, não quero algo que seja apenas, “um algo”, ao idealizar a perfeição, pretendo atingi-la e, sem “humildades”, melhorá-la. Estóico, forço-me ao falhanço e assim continuo... tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e erro...
O tempo passa e assim vou ficando, na tentativa e no erro.
O erro transforma-se em tentativa e a tentativa em erro, vou encontrando melhoramentos, mas a perfeição é ainda um “alvo a abater”. Prossigo... perseverança e persistência, digo-me! Repito-o tantas vezes, quantas as da tentativa e do erro. O erro fortifica-me, paralelamente, torna-me mais exigente. O erro não me dá sensação de fracasso, pelo contrário, oferece-me inteligência. Nunca caindo no mesmo erro, aquando de cada tentativa, reinvento-me, desconfio e re-descortino o mundo á minha volta, altero tudo, mas não repito tentativas!
Fico assim!
O mundo á minha volta vai-se mudando. A cada tentativa minha, tudo se vai alterando e consequentemente, vou ficando outro, as minhas formulas ficam, a cada passo, mais subtis nas suas peculiaridades. Não se esgotam as hipóteses de tentativa, o “laboratório” continua apetrechado de itens novos, de novos erros á espera de acontecer. Ao mesmo tempo, torna-se, para mim, nítido que tudo vai ficando mais coeso, mais uniforme. Faz tempo que existem erros que já não tenho a capacidade de cometer, longe vão os dias dos erros e tentativas pouco diferentes.
Evoluo e fico assim, vou ficando!
Pode ser que o tempo me ensine muita coisa, mas eu também vou mostrando ao tempo, que estou aqui para ficar, digo-lhe até, por vezes, que ele não me vai mudar, erro...
Sou perseverante, tanto assim que me fui tornando teimoso, persistente em relação aos dados concretos que fui adquirindo nas minhas “experiências”. Não sou capaz de dizer que não sei ainda nada, pelo contrário, sei o suficiente para questionar o que julgo, de resposta, ser já possuidor. Busco a questão das coisas, não a resposta. A idéia de que vou parar de errar por meu percurso, onde repito, vou ficando assim, afugenta qualquer tentativa!
Fico aqui, assim, a bater na parede da duvida, sempre ricocheteando pelo que me é desconhecido.
Nada disto pretende negar o oposto do que entendem ao lerem-me, pois se assim for interpretado, erro nesta “tentativa” de me mostrar. Para o caso de em mim lerem esse erro, afianço-vos, facto tal não me é estranho, talvez por isso eu aqui esteja, escrevendo, na execução da tentativa de me transmitir para vocês.
E é assim que eu fico, ou pelo menos, vou ficando...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Congestionamento sensitivo.



(ilustração andreia P)

Harmonia. O beijo encontra o lugar para acontecer e aí, acontece! A insaciável vontade de se moverem na direcção um do outro, faz com que as mãos suem e se prendam em sensações que, nem sei…
Poesia vibrante e inigualável transborda do olhar, escorre pelo rosto e vem aterrar aqui, em mim, no meu colo que só pensa a hora de se abeirar dela para a confortar.
O beijo repete-se, sempre com um novo enlevo, com algo de indizível. As mãos passeiam e perdem seu suor, descarregando no corpo do outro, todo aquele desejo e vontade de se fundir.
O tempo congela e então existe tempo para se olharem e falarem. Apenas uma palavra, muda, uma palavra que não é referida em lado algum.
O calor regressa e o suor brota novamente.
Beijar a sua pele e sentir o seu cheiro, permitir-me ao passeio por suas curvas, deixar meus lábios marcados em seu corpo. Parar meu coração, só para a sensação não ser interrompida por ruído algum. Parar num silêncio que só me prende ao seu olhar e me deixa antever algo de belo.
Entretanto, contornos realçam-se na passagem das luzes da noite. Um rosto tão dela que parece ser magico, perco-me nele, percorro-o! Percorremos a cidade. É noite e toda a iluminação parece indicar-nos que a cidade dorme. Um semáforo vermelho surge, é só mais uma desculpa para um doce e demorado beijo. Toco-lhe a perna e ela encolhe-se, sente-se amada e isso faz com que sorria. Todo o seu rosto se abre transpirando calma. Olho-a fixamente, ela sabe disso, mas para bem do jogo, finge nem se dar conta. Outra paragem, outra troca de fluidos, quente e assustadoramente viciante. O tempo parou, o semáforo troca de cores e ninguém nota, estamos demasiadamente fixados no nosso mundo para nos darmos conta de que existe gente lá, do lado de fora. O tempo é só nosso, tão nosso que de pouco nos importam os barulhos vindos do exterior, só nos interessa o burburinho interior, entrecortado por carícias e sonhos. Somos forçados a prosseguir o caminho, a noite vai longa, mas parece-nos correr demasiadamente rápido. Queremos a todo o custo parar um pouco mais, naquele tempo, naquele espaço. A cidade louca, quase nos consome, mas não nos importamos e consumimo-nos um ao outro.
Mais um beijo, um abraço e uma palavra, outra e ainda outra. As palavras parecem não querer acabar e por isso mesmo, recusamo-nos a ir embora. Pertencemos á cidade e um ao outro.
Paramos o carro num lugar qualquer e soltamos as amarras do desejo. Já só estamos bem nos enleios um do outro, já só nos sentimos se nos estivermos a tocar. Ela olha-me nos olhos e eu penetro-a, vou fundo nos pensamentos dela e sussurro segredos e encantos a cada uma das maravilhas que encontro no seu interior.
Ela sai de si mesma e consome-me, por dentro, por fora, consome-me inteiro! Ficamos nisso horas, dias e até anos, só um beijo nos acalma, só “aquele” calor nos resguarda da intempérie exterior.
Eu paro o tempo e aproveito para me manter a uma distancia suficiente para admirar o momento. Já não somos iguais, comentamos um ao outro sem quebrar todo aquele silêncio. Já não somos os mesmos…
Ela ergue sua mão e afasta ligeiramente os dedos, percorre todo o meu rosto num gesto amplo e adorável, fico perdido. Sinto que desmaio de tanto sentir, de tanto me transformar. Ela segura meu pescoço e com a língua, humedece ligeiramente os seus lábios, prontos para me tocarem com uma candura só dela. Fecho os olhos, nada me passa pela cabeça naquele momento, sou um infinito vácuo de confiança e de absorção do que ela me quer dar.
Beija-me!

O tempo passa, tudo passa. Recupero os sentidos e olho-a fixamente. Trocamos ideias sobre tudo, naquele silêncio que o nosso olhar fala, dizemos, um ao outro, tudo o que nunca havíamos proferido. Felicidade irrompe, ambos sorrimos e percebemos que tudo é viável. Finalmente, o sonho metamorfoseasse e ganha uma forma concreta.
A cidade prossegue seu ritmo normal e nós, nós embalamo-nos mutuamente numa realidade só nossa.

sábado, 9 de agosto de 2008

Descritivo de si.



(ilustração de andreia P)




Resplandecente sorriso que me faz levitar. Boca doce, lábios ternos e agressivos. Lábios que beijam sonhos que em mim existem. Uma língua sumptuosa, cheia de volúpia e luxúria. Traços faciais que se interligam numa assimetria bela, uma assimetria que se completa por ser dissonante, por ser original e apelativa. Uns olhos, uns olhos quaisquer, uns olhos vulgares que são dissimulados! Uns olhos que se camuflam de banalidade e trivialidade apenas por serem profundos demais e por terem percebido que afugentavam o intrépido observador que se enamora a cada piscar. E o cabelo, que dizer? Longo, interessante e generoso, dá-nos a impressão que poderíamos palmilhar léguas e léguas e que nunca sairíamos da extensão que vai da raiz até á ponta de um só fio. E um corpo belo, branco como neve que brilha, reluzentes raios de sol reflectem nele e inebriam todo aquele que se prende nele. Tudo isto completo de imperfeições que só nos atraem por serem únicas! Imperfeições que são nada mais que a marca de uma vivência e uma personalidade. O corpo perfeito é desinteressante e insosso.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Bipolaridades



(ilustração andreia P)




Reflectes matérias nos dias que correm, buscas, pesquisas e indagas tudo, mesmo aquilo para que já encontraste a resposta. Cansas-te imenso e imaginas se terá um fim toda essa procura. Acordas outro dia, outro dia e ainda outro… acordas-te sempre quando te permites a sonhar, apenas para reafirmares que és tu quem tem a vontade de sonhar quando queres. Só tu é que sabes o teu destino e deixas isso claro! Não te preocupas com o que os outros possam dizer ou com aquilo que os outros possam fazer. Estás “na tua” o mundo é que vem ao teu encontro para te dar novidades de como deves percorrer esse mesmo lugar. Estás constantemente num momento de mudança, constantemente num momento de aprendizagem e fome de mais. O suficiente não te chega, queres demais e mais tarde ou mais cedo, isso será a razão do teu fim. Questionam-te muitas vezes se tudo isso vale a pena, tu respondes que não sabes, mas que estás cheio de vontade de descobrir. Repetes para ti mesmo que, deve existir uma resposta, deve haver uma solução, tem que haver uma solução, só podes parar quando não conseguires andar mais por saberes que o andar, pouco interessa no teu caminho. És um lutador, principalmente, és um defensor do teu trilho e do que ele te reserva, sentes que de nada vale a vida sem conteúdo, ou o conteúdo sem uma vida que o apoie. Precisas de auxilio, mas pouco te importa se ele não vem, sabes que a capacidade que tens para te ajudar é maior do que aquela que os outros terão, sequer, para compreender o teu problema. És um solitário, um eremita pós-moderno que se exila, apenas no seu intelecto. Estás sozinho, mas na tua solidão, acompanhas-te com pensamentos de esperança. És um líder nato daquilo que julgas poder controlar, ou seja, a tua vida e o teu destino, se é que assim lhe poderemos chamar. És um louco egoísta, mas isso de pouco te importa, sabes que agiste correctamente no momento em que te decidiste a faze-lo. Não reflectes em ti a verdade do mundo, mas esperas que a verdade do mundo se reflicta em ti. Sonhas só, num sono acordado do qual te impedes de sair, só por pura teimosia e orgulho. És orgulhoso demais, simplesmente és orgulhoso demais, nem sequer existe uma razão para isso. Dizes que nasceste assim, mas a verdade ,tu bem sabes, ninguém nasce de forma alguma, toda a gente se transforma depois, nasces vazio, apenas com a unanimidade que és um dos “do grupo” desse todo formado pela humanidade, és um humano, só esse traço te liga com a realidade, só esse traço te define como homem ou como pessoa. O traço não é claro nunca, nunca está bem cravado, está sempre pronto para ser apagado, é que nem um traço de lápis, que até com o tempo se começa a desintegrar.

Eu amo o mundo e tudo ao seu redor, acordo e apercebo-me da minha sorte por ter o discernimento para ver aquilo que está ao alcance de todos. Não sou único nas minhas particularidades, mas particularizo-mo por ser como sou e por me dar a entender como devo ser. Queria um pouco mais…

domingo, 20 de julho de 2008

Indelével transparência




(ilustração andreia P)


E é por entre momentos de silencio, em que apenas uma palavra se escapa, que o sossego começa a mexer com o nosso próprio intelecto. Começamos a ficar atados nas nossas próprias lembranças e tudo aquilo que vemos, nos parece muito pouco verdadeiro. Talvez tenhamos a curiosidade de ver como o mundo gira sem nós, talvez seja um qualquer lado negro que temos, mas que não queremos ver, pois ele faz-nos sentir que temos mais que fazer do que sentir que existe uma vida além de nós.
Queremos ter a sensação, que nos subtraímos de um todo ao qual nós, por intuição, sentimos que não pertencemos. É apenas o dia a vir ter connosco e a dizer-nos que a nossa noite está prestes...
Nesse tipo de instante, em que poucas coisas se fazem, para além de lembrar o que éramos e como gostaríamos de ser, é que nos sentimos um pouco sozinhos com a memoria que de nós mesmo temos.
Somos apenas uma memória que esquecemos de nós mesmos. Nada nos satisfaz, nem a realidade nem o sonho, nem o dia nem a noite. Estamos simplesmente a tentar encontrar um “limite” que nos deixe livres o suficiente, mas que por outro lado nos prenda, pois nós, incautos de razão, precisamos sempre de barreiras, quanto mais não seja para que nos apercebamos que o “tudo” não tem fim e o “nós” tem! A esperança será sempre chegarmos á conclusão que continuamos a batalhar com o que temos no nosso interior, sem que dessa batalha reze qualquer tipo de historia ou memoria. Somos uns espectros viajantes que nos encontramos em constante mutação e ascensão. Queria continuar-me por dentro do tempo, tão dentro do tempo, que o tempo deixasse de ter um friso temporal e passasse a ser só uma expressão daquilo que eu sinto que ele seria se eu não me importasse com ele. Só porque me são duros, os dias em que não durmo, por sentir que ele tem mais que fazer do que me sentir logo ali, do seu lado, no seu encalço.
Sou só um momento no espaço, e no tempo permito-me a ser apenas um momento…
Quero acrescentar palavras aquelas que disse acima, quero dizer que o segredo para a vida, será sempre algo mais do que a morte, será sempre algo mais que sorte ou azar, será sempre algo mais! Aquela que será a grande questão é se teremos a capacidade de confiarmos que a nossa hipotética falta de hombridade na hora de assumirmos a nossa pequenez, fará com que erremos sempre em tudo, ou quase tudo o que fazemos.
Somos apenas a sombra de um erro que está para vir. Não seremos nunca, muito mais do que isso… um erro.
Poderá eventualmente dizer-se que tivemos a capacidade de evoluirmos para reflectir sobre essa nossa condição, mas no final, apenas o nosso erro de começarmos a reflectir, fez com que a maior parte dos problemas surgisse. A nossa tacanhez tornou-nos grandes no momento de sentirmos o pendor da mão do destino a bafejar-nos o rosto com o mal dos nossos erros.
Somos uma matéria sem fundamento, um dia inglório numa vida sem muito que se lhe diga. Somos apenas humanos, mas ao pensarmos isso, sabemos instantaneamente que erramos, única e exclusivamente porque nos dedicamos á explosão de nós mesmos, na nossa própria memoria.
O tempo permite-nos pensar que a realidade poderá ser, eventualmente, uma metafísica do sonho, pode ser apenas um espectro daquilo que sonhamos e por consequência uma ficção por nós idealizada pela sede de nos perdermos na busca do intuito de cá estarmos a fazer alguma coisa. Por consequência, somos apenas um sonho de nós mesmos e por esse mesmo motivo, a nossa realidade é ficcionada por nós.
Imagino-nos daqui a muitos anos a “descobrir-mos” que nós nunca existimos e a ficarmos muito surpreendidos com essa informação. Diremos que não, que não é possível, que a verdade é que nós estivemos só um pouco enganados, mas que dentro em breve tudo ficará bem e que sempre tivemos razão quando dissemos que éramos o “algo” mais evoluído do mundo.
Risadas daremos de quem provou que éramos apenas um sonho e esse homem, aquele que foi menosprezado e enxovalhado, voltará para sua escura tumba mental e cessará de se sonhar, findando-se ele assim numa realidade factual.

No entanto, pode ser que eu esteja enganado e pode ser que seja eu quem está a viver um sonho. Seja qual das hipóteses for, pouco me importa, estou bem como estou. Estou pleno e seguro que tenho um algo meu que será muito difícil de menosprezar ou repudiar.

Eu penso e encerro-me nessa vivência aguardando por mais mostras cativantes de reflexão e evolução.

"voyerismo" para romanticos.



(ilustração andreia P)


Olho-os ali, olhando-se, tocam-se, não sentindo que me tocam com sua vida. Será que se questionam que os escrevo?
Ele massaja o corpo dela, enquanto ela, embevecida, se distrai com a perspectiva de plenitude. Ambos param e beijam-se. Parou o mundo para eles…
Tudo se tornou irrisório para os dois, no momento em que doces carícias e olhares os guiaram á candura de um terno beijo que os derrete. Pausam no beijo, afastam-se, apenas o suficiente, para que consigam irradiar o amor que têm um pelo outro, afim que o outro o absorva…
Enquanto isso, eu escrevo.
Agora é ela quem atrai os lábios dele aos dela, com um gesto que impressiona até o mais libidinoso dos amantes, que com tal gesto se imiscui de toda a lascívia e se prende somente na sensação emocional que é ser-se amado.
Continuam a beijar-se, ele abraça-a e ela promete-lhe. O quê? Só eles sabem, eu apenas os observava.

Ele gordo, bonacheirão e possuidor de uma aura carismática que só os gordos têm. Ela, simpática e anafada de uma magreza doentia que nos parece dar a impressão que uma palavra mais rude da parte dele decerto a destruiria.
Ambos na mesa, trocando palavras, risos, olhares de desconfiança e animação.
A aliança dourada dele e a notória disponibilidade dela a ignorar esse facto, fazem adivinhar que esse detalhe dourado é algo que pouco importa a ambos..
Ele negro e fumador, ela loira falsa, e com os calcanhares envergando uns ténis numa posição um tanto infantil e indefesa. Uns nítidos 40 anos para o calmeirão e uns parcos 20 para a indefesa. Mesas ao redor olham, com mais descaramento ainda que eu, que os olho para os escrever. Eles parecem alheios e adaptados a esses olhares, pelo á vontade deles não é a primeira vez que se encontram assim.
A cada profundo trago no cigarro dele, ela enrola o cabelo loiro no indicador e curva-se afim de sugar da palhinha que termina no copinho de sprite.
Parecem-me bem confortáveis e á vontade, os julgamentos externos não os impedem de viver o “seu” momento.
Será que o mesmo pode ser dito dos olhares de quem os julgam?



Ela sozinha, mesmo aqui do meu lado e ele, ele imagino-o estando do outro lado do mundo.
O “garçon” abeira-se dela e ela como que se espanta, num pequeno espasmo soluçado de quem nitidamente não está acostumada a estar sozinha. Pede um suco de abacaxi, a medo, novamente se refugia nela mesma. Parece estar longe, com ele. Subitamente vira-se e pede um cigarro, solta um sorriso quente depois disso. “Com certeza” digo eu, num tom de quem não quer dar a entender que a observara todo este tempo. Pega no cigarro, volta á posição e lentamente curva-se novamente… “tem isqueiro?” pergunta-me ela num tom que revela que ela não quer mais a solidão.
Acendo o cigarro dela e ela agradece ao mesmo tempo que se volta para a posição original. Nesse momento deixei de escrever, tudo o que escrevesse, poderia ter-se tornado pessoal.

sábado, 12 de julho de 2008

O "Chefe" poeta.


(ilustração andreia P)


Estava solto num mundo belo, prendendo-se aquilo que de melhor encontrava para transmitir. Cantava a vida com seus olhos e deixava-a compor, nota a nota, a sua musica. Tudo era extraordinário para ele, não se entristecia por nada. Via os dias chegar e degustava, de cada um deles, as especiarias que lhe aprimoravam o paladar. Era um “gourmet “dos dias.
Traduzia o sabor de manhãs, tardes e noites, em palavras saborosas que os outros comiam e choravam por mais. Apelidavam-no de “chefe” poeta, e ele, sem colocar entraves, oferecia mais um prato verbal. Versejava sensualidade com aroma de ostras, apimentava sensações de alegria com forte gosto a caril, chegava até a relaxar com especiarias asiáticas. Tudo era um maravilhoso prato falante, até seus pontos finais com gosto de café e fumo de cigarrilha. Era um felizardo e falar o que outro ouvia, era tudo o que lhe bastava.
Mas nem tudo se resume a poesias ou cantigas, tudo o que é claro, esconde sua sombra e penumbra…
Não tenho palavras para falar o que calo! Quase todas se esgotaram, ou perderam significância. A poeira que se solta por entre frases sem sentido, faz com que o discurso perca viabilidade. A mentira é tudo o que sobeja na boca do velho falador. E ele fala, torce o próprio nariz a si mesmo a cada barbaridade nefasta que solta, sozinho no seu mundo. Ele sabe que o seu negrume de indignação fútil, esbranquiçou a calejada escuridão da mentira. Nada sente ao dizer que se sente frívolo e perdido num mundo, cada vez mais, feito de atitudes narcísicas e hipócritas. Mesmo ele, que antes apregoava em todo o lado a verdade e virtude, se deu como vencido no árduo esforço de despertar sensações. A poesia despediu-se, falava ele em tom de gozo. Ela foi-se embora, só porque não se sentia respeitada, continuava ele…
Quase se lhe via as lágrimas de areia seca e malcheirosa rebolando pelo rosto escamado e amarelecido. É triste a vida de um homem que se dá conta de estar vazio do tudo, só de tanto se tentar dar! Esgotei o meu sopro e agora resta-me reter a respiração afim de que nada se escape ou invada meu ser já morto e infeccioso! Sou o meu mal, tendo sido o bem do mundo! E ele continuava, infindavelmente, repetindo palavras mortas e rebolando por seus fantasmas. Era um homem bom, que simplesmente havia desistido de esconder seu lado desistente. Rendeu-se ás suas próprias evidências e não se esforçou sequer, para tentar camufla-las. Era, no fim de tudo, um homem nobre, nunca deixou de o ser.
Não fica pena ou pesar, apenas saudade de pratos quentes e deliciosos…

quinta-feira, 10 de julho de 2008

AVISO....

PARA OS QUE ESTAVAM ACOSTUMADOS A UMA FOTO COM CADA POST, FIQUEM SABENDO QUE AGORA O BLOG VAI EVOLUIR. A PARTIR DE HOJE, CADA POST TERÁ UMA "MAOZINHA" MAIS CRIATIVA, PASSANDO A EXISTIR UMA ILUSTRAÇÃO PARA CADA UM DOS TEXTOS. AGRADEÇAM Á MAIS RECENTE PARTICIPANTE DESTE AFAMADO BLOG:

ANDREIA PEREIRA

PODEM SABER MAIS SOBRE ELA VISITANDO:

http://aspinkasred.blogspot.com/

DIVIRTAM-SE E BOAS LEITURAS

Pôr do Sol...


(ilustração de andreia P)


Respiro. Inspiro e expiro! E suspiro…. O lugar parece vazio com ausência de um algo que, pressinto, voltará em breve. O espaço fica vago, mas esperando o preenchimento que só esse algo oferta. Existe uma sensação de plenitude, uma sensação de compreensão do silêncio de quem fala por palavras mudas, de quem não emite som… Existe um olhar que não se vê, mas se sente. É a complexidade do “algo que não é falado” mas que é fortemente sentido. É aquilo que chega a emocionar pela veemência e virtuosidade complexa, mas que no fundo é tão simples. É tão simples, engraçado, é tão simples! É uma mescla emocional que apenas dá espaço à razão para ela concordar com tudo. É a racionalidade agrilhoada, só para o bem da emoção, só para tudo ser sentido, só para tudo fazer mais sentido.
É uma compreensão, uma escuta mutável, uma escuta libidinosa, sem que de sexo se trate. Uma escuta que é libidinosa só porque a palavra existe e também nos transforma e ensina. O sexo é outra coisa, é um outro patamar evolutivo, nos meandros da escuta e da compreensão. O sexo, é outra coisa!
E é aí, no meio desse silêncio, esse silêncio que ecoa por todo lado, que bate nas paredes e sussurra, que se esconde por entre bizarrias e depois nos surpreende, que o suspiro brota. O suspiro de vontade de reencontro, o suspiro que fala mais alto que mil pregões juntos. Quem suspira, exala um odor a saudade, saudade de algo que está tão presente, aqui, nos meus sentidos.
A polvorosa criada por memórias, em nada se equipara á explosão de palavras, toques e emoções partilhadas outrora. Existe uma sensação de esperança num algo desconhecido. Isto só acontece, porque emociona toda aquela verdade exposta em diferentes silêncios que nos guiam para um outro patamar! Um patamar de exaltação do sermos nós, de nos vermos e não sermos outra coisa que somente nos atrasa e dificulta. É verdade, somos nós, o eu e o tu, seja lá quem fores, ou onde estejas…
Permito-me á alegria da lembrança de um beijo e deito-me na minha cama, o algo espera-me, lá longe, no trilho que nos leva um ao outro sem que nenhum de nós se aperceba o quanto já percorremos até termos cá chegado!
Os lençóis já me abraçam, eles sabem o quão complexa para mim é a solidão, por isso eles tentam enlaçar-me. Refugio-me neles que nem uma criança, esperançoso, pueril e sonhador. A almofada, essa, sussurra-me no ouvido segredos, segredos que eu conheço, segredos do lado de lá. Sempre foi boa companheira, ela apoia minha cabeça e embala-me numa viagem calma e segura, uma viagem ao meu outro lado…
Ali perto, a lua espreita, ela fica curiosa com o mundo que dá voltas. Procura sempre alguém que também dá voltas com ele, ao invés de se prender firme a um chão que não lhe pertence! A lua fala-me que eu tenho de me colocar em orbita com a vida, só assim não acabarei agoniado. Eu só penso que é engraçado como o mundo parece querer desviar-nos do nosso trajecto, apenas conseguindo com isso, que nos aproximemos mais do nosso destino.
Destino… Quem percebe disso é o sol. No ultimo por do sol, ele disse-me: “amanhã estou de volta, esse é o meu destino, partir, somente para regressar!”
Cada dia compreendo melhor o sentido de tais palavras, mantenho-as para mim não as partilhando. O silêncio é importante, para que tudo fique dito...
Deixo aqui o silêncio e espero que me percebas…

Stand-up no Brasil...

Algumas imagens e a agenda para esse mês de julho.

(mais datas brevemente disponiveis)








Quarta 09-07-08 Comedia na Cara 22h
Restaurante La Reina
AV. HEITOR PENTEADO, 83

Quinta 10-07-08 Fanta Rosa Mogi das Cruzes 22h
(morada a confirmar)

Sexta 11-07-08 improRISO NO MR BLUES - 21h

Mr. Blues
Av. São Gabriel, 558
Itaim Bib


Domingo 13-07-08 Recife
Na Spirit Music Hall
Informações 3268.4080

Quarta 16-07-08 Comedia na cara
Restaurante La Reina
Heitor penteado 83
S. Paulo

Quinta 17-07-08 Arriba
Tequila’sim Bar
Rua Domingos de Moraes, 2330
S. Paulo

Quinta 24-07-08 com Diogo Portugal
Curitiba



brevemente espero noticias do Rio de Janeiro e de mais alguns lugares aqui em S. Paulo.

Fiquem atentos

terça-feira, 8 de julho de 2008

"Esquisitofrenia!"






Caminhos que se cruzam por forma de encontrar um conjunto indispensável á respiração que nos move.
Um passo que se segue ao outro, sem preocupações de um pequeno percalço que pode acontecer quando ambos os passos se cruzem.
Uma sensação de velocidade lenta que aumenta a cada instante que… sei lá!
Ser honesto, ser sincero, dizer que não sei porque escrevo!
Falar que falo, apenas para ser ouvido.
Será sempre assim ser como eu, quero ser o que quer que seja o que eu quero ser?
Não faz sentido, o falar já não faz sentido. Já não me sinto sentido!
Vai embora, larga-me e deixa-me ir por onde quero! Solta-me! Deixa-me estar! Porque não me largas quando te peço? Porque és tão frio e cru? Permites-me só a um pouco de silêncio?
Reflecte-me em ti, deixa-me ver-me!
Deixa-me estar aqui, contigo…
Para que me deixas voar se só pensas no momento em que descanso a teu lado?
Será que vais ser sempre assim? Confuso?
Só me apetece fugir para dentro de um abrigo que desconheço.
Problemáticas, problemáticas todas umas a seguir ás outras… porque é que não és mais simples? Deixa-me estar, deixa-me andar simplesmente!
Eu sou tão simples, tu só me complicas!
Peço-te, com respeito… deixa-me ir!
Sou eu, tu! Fala-me, mas não me grites, só sou o que tu queres ser para mim! Se és complexo, eu também o sou, se és simples, forçar-me-ei a sê-lo também, eu só quero o nosso bem, tu sabes! Eu sou tu! Personalidade fraca e sentidos despertos, demasiado despertos! Dorme um pouco, deixa-me tomar controlo da pessoa que somos juntos! Confia em mim só um pouco e deixa-me seguir pelo nosso caminho! Sabes que no fim de tudo, serei só eu e tu! Consciência e emoção… fazemos parte do mesmo todo, permite-nos a lutar contra outra coisa que não a nossa própria pessoa. Deixa-te ir um pouco mais, vais ver que vais mais longe, pelo menos sairás um pouco do marasmo em que te moves tão mal! Moves-te mal, sim, eu sofro com o que tu pensas e dizes! Eu sofro!
Desisto, de nada vale falar-te, serás sempre tu e eu, nunca seremos nós, não, nunca nos poderemos sentir um… seria bom demais e já se sabe que a perfeição deixa sempre muito a desejar. Um abraço…

Nenhuma foto...

Procuras harmonia, calma e contentamento. Os dias chegam-te sempre novos e com frescura, não te chega! Existe sempre ali mais alguma coisa para procurar, existe sempre um “algo mais” que não consegues muito bem explicar o que significa. Só te queres sentir como um todo, estás farto de todas aquelas partes a chamarem-te à atenção, sem te sentires parte de uma totalidade. Sentes saudades de algo, mas não o podes afirmar para ti mesmo, pois se o fizeres, será negar que estás bem como andas. Mas tu estás bem como andas, só te cansas é de andar sozinho! Sonhas a companhia, o local, a conversa e o motivo, no entanto sabes que é isso o máximo que consegues fazer, sonhar. Não te incomodas e deixas-te ir, sempre mais um pouco, sempre mais forte e seguro de que tens uma direcção. Achas um rumo e és fiel. Páras por vezes só para descansar e é nesses momentos que duvidas se o rumo que traças é correcto, confias novamente e andas mais um pouco. Sempre andando, passando por memorias, pensamentos, conclusões, traumas, paixões e tudo o resto. Gostas do risco, pois sabes que ele te desafia, aquilo que te custa é saber que não queres tanto risco e descoberta, queres saber que o próximo passo não terá hipóteses de ser em falso. É a tua racionalidade a pedir-te aquilo que só a paixão te permite, a certeza de que estás vivo. É então que equacionas a possibilidade racional de te findares num momento presente, a possibilidade de teres o reverso da vida, mesmo isso de pouco te importa. Sabes que o fim da vida é, para todos os efeitos, um final. Passionalmente não tens a capacidade que a tua racionalidade te parece pedir. Amas demais aquilo que vives e por isso, segues, insistindo no erro de te “amarrares” a uma esperança. Mas que boa é a esperança, que boa sensação que ela te dá…
Estás a viver e só isso vale tudo resto!

Queimar-te...





Olhei para trás e estava alguém a ver-me passear pelos meus caminhos. Estranhei, mas segui o meu percurso, não me costumo incomodar com pessoas que não admitem que me querem ver. Dou mais uns passos e sinto novamente um olhar que me aquece a pele, arrasto minha mão pelo corpo e sacudo esse calor! Sinto-me melhor por uns momentos, até ao instante que me apercebo que não consegui findar aquele calor, aquele desejo que alguém vê em mim.
Sou desejado, pensei, sinto o calor e aqueço a cada olhar fogoso. Subitamente o desejo rebenta com a minha pele e sai projectado do meu corpo, em direcção aquele outro, que me vê! O calor é já tanto que ambos os corpos se desnudam tentando esfriar aquele desejo.
Não adianta e parece que já queima, arde algo que se torna impossível de apagar, algo queima até o ar que nos envolve. Ela vem do meu lado, coloca a mão no meu ombro e sussurra meu ouvido com chamas, um fogo vivo que me diz : quero-te! Quero-a também, mas estou a arder, estou a queimar, refreio-me de a tocar, se a queimo mais, fico aqui a ver o fogo arder, pensei! Não aguentei e toquei-a , um só toque que explode o calor numa lava constante que se espalha entre nossos corpos. Ficamos parados naquela troca magmática e deixamos que nossas chamas se fundam. Como um beijo pode ser quente…
Estávamos já a arder fazia dias, a chama não queria apagar e nós só queríamos alimenta-la mais. Possivelmente ela pensava o mesmo que eu e de certeza que ambos queríamos o mesmo. Um beijo, mais uns toques, mais umas emoções fortes que nos fizessem arder mais algum tempo. No entanto o tempo prega partidas, o tempo leva-nos para longe e é nesse momento que temos de reunir as cinzas de todo aquele fogo e cuidar das queimaduras até que o fogo volte a arder aquando do seu regresso.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Quando o momento não basta.





Fazia dias que eu não a via. Ela tinha passado uns tempos lá em casa, mas tinha saído sem aviso. A principio preocupei-me, mas rapidamente percebi que esse era seu caminho, esse era o seu momento. Passei uns dias vagueando pelas memórias e pelos odores que ela deixou. Principalmente passeei pelos pensamentos que trocámos. Pensamentos simples, encontrar algo, viver. Era só isso que parecia importar. Os dias eram tão calmos, tão cheios de coisas que tinha sempre de vir mais um dia, para que nada fosse desperdiçado. Como tal, os dias foram-se sucedendo sem que o sentíssemos. Estávamos todos procurando, todos procurando sem o sabermos. Longe, lá longe, no espaço onde julgamos guardar as conclusões, tudo se ia revezando, um dia uma certeza, outro dia uma outra. Tudo é mutável, dizia alguém no fundo do hall de entrada, estranho lugar esse, para conversas sobre o tudo…
É verdade, conluia o “quase-bêbado” anfitrião, é verdade o quê? Questionava-mos nós, meio perdidos noutras conversas e pensamentos que aquelas que nosso amigo, “quase-bêbado” , parecia ter com ele mesmo. E então ele respondia, naquele estilo “quase-sóbrio” de quem está “quase-bêbado”, a verdade, a verdade é que tudo está aqui, tudo o que ali está, está aqui! Fingíamo-nos desentendidos, desculpava-mos tal discurso com ingestão de tais bebidas que ele tomara no decorrer da noite e da companhia. Mas a verdade é que tal discurso toca, quando a situação assim o permite. A ela terá tocado decerto! Ela partiu nesse escorrer de noite…
Tudo o que restou na manhã seguinte, foi a garrafa vazia que a noite despejou e o odor que ela se permitiu a deixar no hall que iniciou todas as tropelias a que nos sujeitamos.
Mas é bom, agora que o penso e falo, é bom. Não sei porquê, mas penso que o pendor da despedida está no facto de a presença ter sido tão boa, tão útil e enriquecedora. Agradeço agora o facto de ela não me ter avisado, foi difícil senti-la ir, mas seria mais complicado ainda retê-la. Apesar de tudo o que “aqui está”, estar também ali, se não nos movermos, nunca teremos a certeza. Admiro-a pela determinação e garra, de se deixar dissolver no momento em que a decisão se toma. Aprendo muito com ela sempre que a volto a ver nas memórias em que a guardo. O mais estranho no meio de isto tudo é que eu era o anfitrião, tenho medo por vezes que tudo seja imaginação minha e que o momento para sair do meu “hall” tenha chegado, tenho de me decidir a partir para ver o que “ali” está! Será que ela lá estará? Esperando que acorde e viva meu sonho com ela? Será que ela é real? Será que o vou saber? Incerto, «sonho e imaginação ligam-se que nem um encontro entre átomos que explodem sobre a pressão de se ligarem» . Vou indo, quero explodir o meu sonho com a minha imaginação…

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Familia.




Pai Sol



Reparei no sol hoje, reparei que estava só.
Apenas ao sol me refiro, quando me refiro a solidão
Vejo-o lá, tão longe e tão sozinho…
E apesar de ser tão visto e acarinhado,
Ele está sozinho!
Ninguém o abraça num sonho…

Ninguém o convida para uma noite boa
Ninguém o chama para uma conversa.
Ele? Sempre lá, para nós!
Ingratos, todos são ingratos!
Única e simplesmente por não verem!
Não verem quem abdica de sua vida,
Somente para que possamos respirar.
Não agradecemos o “dado adquirido”.
Não agradecemos as pequenas coisas.
Não vemos os detalhes…
Estamos entalhados na nossa miudeza.
Perdemo-nos no eu, sem olhar para o “ele”.
Todos somos “eu”, alguns serão o “ele” .
Todos temos um ou mais sois.
Eles lá ficam, sozinhos e “paternais”.

Rafael, o filosofo de infantário...





Represento a verdade que mente a todo o instante. Represento a mentira e o que dela deriva. Represento-me e sou mentiroso. Imagino o olhar dela e a versão dele. Ponho-me a questionar a razão pela qual a emoção transborda e reflicto, reflicto imenso sobre as razões que nos levaram/trouxeram aqui! Sou um rapaz tranquilo, represento o que sou! Não minto quando digo que o faço, mas minto, sempre que digo que o faço de determinada maneira. Tenho só 7 anos, reflicto e ninguém se acredita, dizem que sou novo. Minto na minha idade. Falo que são 30, os anos que já vi passar, continuam a surgir comentários que dizem que aquilo que observo não contem maturação. Exagero! 60, digo eu, referindo-me ao numero de anos que já vi viajarem por mim. Continua a ser insuficiente. Todas as vezes que falo, dizem-me que ”idade não é estatuto”. É então que questiono: Quem és tu, para me dizer isso? “Sou maior, mais experiente, mais verdadeiro… não preciso de mentir nas viradas que já vi os anos fazerem, para que me confiem, eu confio-me, eu sou o que sou! “ Escutei, calei e percebi, mentiroso! Tão mentiroso quanto todos os outros! Tão mentiroso como todas as “verdades” que me tentam passar! Tão inseguro, tão normal, tão reflexivo e inquisitivo quanto os outros, todos os outros… Impõe-se a questão, quem são todos esses outros? Que fazem? Que pensam? Que dizem? Que experiência obtiveram? Não sei, mas penso que somos nós, todos nós somos "os outros"!É rude, a frieza e crueldade da insegurança! Faz-nos desconfiar de nós e do que julgamos ser, mas eu só tenho 7 anos… o que é que eu sei?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Desculpas...










Homem 1 - Desculpa!

Homem2 - Porquê?

Homem 1 - Desculpa!

Homem2 - Mas porquê?

Homem 1 - Não fales, aceita só as desculpas…

Homem2 - Não, não desculpo algo que desconheço!

Homem 1 - Tu não queres saber, a sério… Desculpa simplesmente.

Homem2 - Estás a começar a assustar-me, diz-me logo porque me pedes desculpa!

Homem 1 - Não posso, é grave demais!

Homem 2 - Não tas a facilitar…

Homem 1 - Nem posso…

Homem 2 - Nem podes o quê?

Homem 1 - Facilitar!

Homem 2 - Bebeste?

Homem 1 - Desculpa!

Homem 2 - Ah, então foi isso, bebeste…

Homem 1 - Não, já te disse, só quero mesmo que me desculpes!

Homem 2 - Não estás a fazer sentido, mas ok, eu desculpo-te…

Homem 1 - Que alivio! Não imaginas o peso que me tiraste das costas!

Homem 2 - Não percebo porquê, o que é que eu desculpei afinal?

Homem 1 - Eu estive com a tua mãe hoje…

Homem 2 - Não! Não pode ser! Tu prometeste…

Homem 1 - Eu sei, mas não consegui resistir… ela faz aquele olhar dela e tu sabes… já passaste o mesmo, não dá para resistir àquele olhar dela. E ainda por cima, ela fá-lo tão bem…

Homem 2 - Como é que pudeste?! És um traidor, tu tinhas prometido… da ultima vez, tu prometeste…

Homem 1 - Eu sei, eu sei, mas aqueles olhos, aquela postura, tu sabes como é

Homem 2 - Sei, mas mesmo assim, não acredito. Como foste capaz?

Homem 1 - Ela curvou-se, tu sabes como é quando ela se curva e me fala naquele tom de voz…

Homem 2 - A minha mãe! Como é que foste capaz!? Aposto que o meu pai e a minha avó estavam a ver esse triste espectáculo, não é? Todos participaram, certo?

Homem 1 - Tu sabes como é, ela curva-se, ela tira… nem consigo falar sem me babar!

Homem 2 - Pára, tu és um porco!

Homem 1 - A sério, ela tira-a para fora, bate com ela na mesa, toda a casa fica empestada com aquele cheiro! Não dá para resistir, ela faz de propósito!

Homem 2 - Traíste-me!

Homem 1 - A sério, o marinado de marisco da tua mãe é irresistível, não sobrou nada! Desculpa, perdoa-me, por favor!

Homem 2 - Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaão! Ai a dor, ai o sofrimento…

Obrigado...





Instantes que se repetem fazem-me esquecer a “razão” novamente. Sou de novo irracional e gosto, sinto-me desperto e sei que vivo! É a razoabilidade sensata de quem sabe o suficiente para conseguir errar de novo e se sentir bem com essa decisão. Somos sempre tão sensíveis, tão crentes de um destino que ruma a nosso favor! Tem piada o sabermos a razão da amargura e mesmo assim nos “atirar-mos” de corpo inteiro a ela! É tão docemente agradável estar-se vivo e ter-se o poder para essas decisões! Elas serão sempre bem vindas para o nosso próprio percurso pessoal. Pessoal, palavra essencial para a compreensão daquilo que somos, pessoas, cada uma com seus defeitos, virtudes e passados maculados por experiências mais, ou menos, boas.

Por agora chega de reflexões meditabundas sobre o sentido pessoal que eu leio na vida de todos. Este blog Retomará então funções como refugio daqueles que querem ler o absurdo da vida visto pelos meus olhos. Muito obrigado por me terem lido nos últimos tempos e alegrem-se, está de volta o “pimpão” !

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Poema




Nego.

Nego que o sinto ou que o tento!
Nego que a experimento,
A sensação de querer ultrapassar minha vontade.
Nego que minto…
Nego tudo o que digo pois não sei o que sinto!

Sonho que sonhei um sonho sonhado por outros
Imagino que é real e deixo-me ir.
Nego que me aproximo ou que quero mais.
Minto e nego que o faço.
Quero negar-me á negação!

Quero tanto, já tendo muito!
Faço tanto, tentando tão pouco.
Que faço eu? Nego fazer seja o que for…
A não ser que a minha afirmação seja atraente.
Só me quero a mim e á minha descoberta.

Rio quando termino de ser quem sou
Rio quando ser o que sou não chega
Sorrio por rires comigo
Fico feliz por estares cá
Choro por não me entenderes!

Revejo-me e sei que quanto mais o faço,
Mais invisível a mim mesmo me torno.
Que transtorno, o querer descobrir-me,
Faz-me ter medo de descobrir que não sou…
Não sou quem penso ser!

Sou só o tudo que quero ser.
Só sou eu, por saber que cá estou…
Que me ouço, me sinto, me vejo,
Me penso, me questiono, me toco
Me reinvento!

Nego tudo o que disse
Pois disse-o agora e amanhã,
Quando me acordar…
Pode ser que eu seja diferente
Pode ser que eu seja quem sou!

Dar para receber.






“Beijar um corpo vivo que elimina a morte de espírito, daquele que quer viver. Experimentar a proximidade e encontrar nela, o lugar que precisamos neste momento. Beijar, sentir-me honesto e desperto para este mundo.”

Sentir num corpo estranho, a estranheza que procuramos resolver no nosso próprio interior. Beijar e acontecer o momento em que o beijo se supera por um segundo, o momento em que o beijo é uma união de espíritos que se procuram, não um ao outro, mas um a ele mesmo. Encontrar a vivacidade no lânguido pulsar das membranas sensitivas que nos permitem sentir o corpo do outro, ali, mesmo no interior do nosso próprio corpo. O beijo, fonte de desejo e inicio do precipício da paixão, o local onde muitos entram, mas de onde ninguém sai como era. Um beijo, aquele momento especial, que só o é, por ser fruto da vontade de dois, por ser fruto de uma “unanimidade” de pensamento que flui e converge para o encontro de ambos. O beijar, o acto que não se profere e só se sente. Vontade, sempre vem a tona o tema da vontade quando o assunto é beijar. Confesso, tenho vontade! Engraçado, nada exprime mais o encontro de dois corpos do que beijar, porque para falar a verdade, não são apenas dois corpos que se aproximam, se sentem e interpenetram, é mais que isso, é um estado de espírito que nos permite abdicarmos da segurança que é estarmos sós, a importância que é abdicarmos da sede de nos mantermos seguros. Curiosidade, outro dos termos que prevalece quando a questão é beijar. Curiosidade de saber se aquele corpo, se aquele jeito de fazer as coisas nos cai bem ou nos agrada, saber se aquele movimento que nos aproxima, nos trás mais novidades sobre “aquele algo” que é de facto uma pessoa, que começamos a descobrir. Querer descobrir se, o matar da curiosidade, mata outras coisas que previamente, por termos beijado uma outra vez, quase nos deram a sensação de ficarmos mortos. É um beijo, tudo isso é um beijo… Tudo isso é um laço e uma experiência. Querer um beijo, o acto de o afirmar, o acto de o conquistar, o momento de nos afirmarmos e conquistarmos o momento para um beijo …

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Aclama Acção!





Retorquir, responder, revidar, retaliar, pegar em tudo e resistir, sonegar o paradoxo e lutar no sonho! Sonhar que se luta, só se luta, não existe vitoria, empate ou derrota, só resposta e insistência, liberdade e execução desse poder.
Perplexo, vagueio no espaço, imagino que o percorro, que o sinto, sonho que eu sou o espaço e que nele vingo, dia após dia, luta após luta, eu vingo nesse espaço.
Desconheço o que o espaço significa, ou, a que algo ele corresponde, só o vagueio e transformo. Experimento nele a vida e o que ela simboliza, procuro resposta e no retorno dessa busca só amealho mais perguntas. Só me apercebo que esse espaço, vazio e infinito vácuo, que a nossa imaginação não concebe, me move, me faz procurar resposta, tal e qual jogo infinito, que não arrecada vencedor.
Sou um “viajante”, um ocultador daquilo que se mostra a mim com lucidez e sagacidade, daquilo que para mim faz sentido, mas que na explanação para “o” outro, perde força, consistência e sentido. Viajo e tenho encontros, ao encontrar-me percebo que buscar-me-ei sempre, e para sempre! Quem sou eu, questiono e indago, e repito, em tom de questão ou indagação, seja qual for a diferença entre essas palavras, procurando solução. Experimento todas as formas, todos os jeitos, todos os percursos, tento… repito-me na tentativa, permaneço na tentativa, esbanjo experiência dela, de “tentativa”!
Aquilo que aclama acção, é a sensação de infinito e a percepção de que nesse infinito, a epifania me bafeja com uma brisa que estonteia de tão real, pura e eficaz. Essa brisa, que me consome e faz viajar, leva-me lá, ao paraíso da pueril simplicidade, do momento em que não questiono e paro para, “a tomada de consciência”. Sinto que na inconsciência, me demovo um pouco de, desenfreadamente, procurar um frémito de vida que me faça sentir vivo e aí, nesse instante, vivo simplesmente, acordo para a realidade e aprecio a experiência que ao meu lado se planta e dia após dia, cresce e cresce e brota e jorra e se espalha, por todo o espaço que ocupo e sou.
Consciencializo-me de que sou inconsciente, sempre que me nego ao acordar, sem antes visualizar o local onde estou. Apercebo-me de que vivi um pouco do sonho e que acordei, só o suficiente para me aperceber que posso continuar sonhando. Fecho os olhos, descanso-me novamente sobre mim mesmo e tiro partido desta minha, nossa, capacidade de nos ressurgirmos deste pesadelo que pensamos ser o caminho até ao sonho. O final, é só a passagem para o outro lado deste mesmo “jogo infinito, que não arrecada vencedor”.
A resposta está no respirar, respiro e no respirar, inalo um enorme fôlego de harmonia, felicidade e bem-estar. Somos só o que desejamos ser, quando nos permitimos a ser, quem queremos ser!

Em homenagem a noites inteligentes e humildes…

terça-feira, 24 de junho de 2008

Circuncisão de hipóteses




Queria, 250g de queijo, 250g de fiambre. Ah e se puder, queria também uns 400g de coragem. Se tiver fresquinha, arranje-me um pouco de imaginação umas 20, 30g, sabe que eu não preciso de muito para começar a trabalhar. Queria também umas amostras grátis de heroísmo, não sei se ainda tem… ah não tem, pois, bem me pareceu, esgota rápido, não é? (risos)
Se me pudesse embrulhar um quilo de sonhos, agradecia, quero fazer uma surpresa para os miúdos. É verdade, falaram-me que ainda tinha luxúria… ah, estragou… como estragou?! Estava tudo misturado, não é? Pois, quando essas coisas se juntam, é sempre complicado não é? (sorrisos)
Oh , é verdade, antes que me esqueça, ponha-me mais umas 400g de esperança, a que levei ontem, gastou-se rápido… pois, fica bem com tudo não é? (longo riso)
E só mais 100g de ódio, comprei demasiado na semana passada, se continuo a levar tanto, fica guardado no armário e ainda estraga (risos).
Acho que é só… você não acha? Como assim? Pois, é, estou um pouco em baixo, se calhar uns dois quilinhos, bem amanhados, de energia vinham mesmo a calhar, pode pôr então, afinal de contas não sou eu que pago, é como na musica, o corpo é que paga… ( apenas um ri)
Se quero amor? Não, deixe estar, estou bem assim, já tenho a minha vida com que me preocupar, se calhar fica para uma próxima… Mais tarde, sabe que é tudo uma questão de tempo, de ‘timing’, como dizem os estrangeiros (riso contido). Se calhar tenho de vir aqui á loja fora de horas, para conseguir um amor bom, percebe-me? (suspiro(s))
Mas pronto, acho que já está tudo. Acha que escolhi bem? É, por exclusão de hipóteses… (silêncio)… (silêncio)…
Ah, mas diga-me, quanto é que é? Uma vida? Pois, isto com a inflação, está tudo a subir, não é? (riso com aperto de mão).
Até á próxima, boa sorte para o negócio…

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O viver dos dias.





Impotência e pesar no momento de agir. O corpo pára porque assim se lhe exige nestas situações. As lágrimas velejam pelo rosto árido. Cada uma delas leva consigo uma memória. Memoria a memória, o interior vai-se despojando do que sentia por algo, por algo que já se perde na infinidade de pensamentos e emoções do momento referido.
É a vida, pensa o cérebro, sóbrio e frio nestas situações. É assim que tem que ser, continua ele em cogitações lúcidas e francas sobre o modo de actuar. Já o coração, vertente emocional e sensível, é agora uma espécie de oásis florescendo numa aridez de sentimentos. A fria lucidez cerebral, fruto de uma vida de racionalidade e lógica no “sentir”, é completamente apoderada por esse coração e molda-se, transforma-se e é desligada no fim de tudo… Só o coração, metáfora de lugar que não cabe na racionalidade cerebral, domina o “renascer”, só o coração imagina e pensa nas memórias, agora vãs, de dias que se foram e voltarão jamais.
É dura a dor dos sentidos, é muito dura, mas logo logo é relativizada essa dor, a lógia intromete-se sempre, que nem um exercito da salvação para o coração extenuado de tanto pensar no modus operandi correcto para este tipo de situações!
Esquecer, diz alguém lá no meio do burburinho, esquece! Sim, esquecer, fácil quando se trata do sitio onde deixamos as chaves de casa, parece que esse tipo de coisas é tão fácil de apagar do cérebro, por muito importante que seja sabermos o local onde guardamos a chave para o nosso apartamento. Já quando falamos de uma vivência, de uma espécie de partitura musical de uma experiência humana, aí o assunto complica-se para o acto de “esquecer”. Desisto prontamente do acto perene de esquecer…
É então que o coração, magoado e “maltrapilhado”, vem novamente em toda a sua força, irado, raivoso e vingativo, repleto de emoção rancorosa e pronto a atacar com todas as suas armas. Continua sem resultar, por mais ira, por mais vingança, nada o fará minorar o que se passou…
É aí que a conclusão se abeira do coração, uma outra vez, vive…
Que simples nos parece sempre a mais complexa das respostas! Viver. Continuar a mover esse corpo. Corpo esse calejado por mais um evento que o talha para o futuro. Viver...
Até parece que se solta uma pequena rizada do corpo ainda enxugado em lágrimas de diferentes memórias, que agora soam a falso…
Mas é, diz o coração em pleno espanto e delírio, viver, repete ele uma e outra e outra e ainda outra vez, viver…
Assim se conclui o seguinte:
Se tiveres algum problema, vive-o, logo logo chegarás a outro que te impelirá a viver mais um pouco e assim vais vivendo e vivendo ainda mais, até ao momento em que tens já uma vida que te sucederá pelo futuro vivido por outros que aí viverão.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Pensamentos obsessivos, sobre atitudes irreflectidas!


(frases soltas e determinações sobre um segredo publico)


Como conseguir o mundo, se aquilo que conseguimos seguir é apenas a batida do nosso coração? O nosso coração quer muito pouco, estabilidade, esperanças de um futuro que não seja solitário e desflorado de sentido, um futuro que seja capaz de nos agradar até ao dia em que esse mesmo futuro para o qual sempre trabalhamos, se dissolva num passado agradável á memoria!

A coisa que mais queremos, é estar bem. Contraditoriamente, aquilo que nos faz evoluir é sempre o mal por que passamos e o estado mau em que nos encontramos.
Estamos sempre na procura do próximo momento de explosão interior que nos desmorona mas que nos deixa sempre uma base mais sólida assim que a poeira assenta. Estamos sempre a tentar evoluir, mas ficamos sempre a meio caminho do que quer que seja.
A evolução é um caminho enganador, estamos sempre a pensar que estamos a seguir em frente, se bem que aquilo que nos custa imenso concluir é que o caminho não é recto, aliás, nem direcção definida tem! Por vezes o caminho que temos de fazer é mesmo voltar a trás e fazer sempre imensas curvas e contracurvas até ao momento em que deixamos de andar!

Penso sempre no meu futuro pois o meu presente e o meu passado fazem-me desconfiar da validade de um futuro que me agrade ou preencha!

É sempre difícil encontrar força no local de onde tudo é retirado, no nosso ser, no meu “eu próprio”! Acho que ele já sofreu tantas alterações, que eu nem sequer sei quem ele é!

Tento respirar fundo, mas o ar que inalo é sujo demais e aquilo que os meus pulmões necessitam não é de ar sequer! Quero gritar o que sinto, mas não tenho voz, nem tenho emoções para partilhar, no meu fundo sobeja apenas a memória de um grito antigo, que de tanto o abafar, esqueci o que significava!

Lembro-me do passado, sempre que o presente se torna demasiadamente desinteressante ou doloroso! (não necessariamente por esta ordem!)

Quero um fim, mas um fim preenchido, mesmo repleto de coisas… só não quero é um fim preenchido de novos inícios! Isso matar-me-ia no final!

Sonho contigo, mas quanto mais te sonho, mais percebo que nem sequer te conheço… és mentira e medo, risco e passado, foste um dia e a minha vida tem mais coisas que fazer que te recordar…
Adeus e tenta sentir as palavras que eu não disse… tenta ouvir aquilo que não ousei dizer com medo de me magoar!

Lembra-te sempre que o meu sonho é a união, o ser todo, o ser pleno e saber que o sou… pois o dizerem-me que o sou, sem eu o sentir, não vale de nada!

Amor, amor é piada, a única coisa que é realmente verdade é o que fazes, principalmente o que fazes sentir aos outros! Estive lá, mas agora é o meu momento de ir… parto e confia que não volto, pelo menos como me conhecias…

Mudei, bastou-me viver para fazê-lo….

Encontrei-me, estava exactamente no mesmo sitio onde me guardei da ultima vez que me perdi…

Adeus, o passado chama-me á atenção e diz-me para viver o presente!

domingo, 20 de abril de 2008

H de esquizofrénico





Reparei ainda á pouco
Sentia um odor, não era meu
Era mágico!
Uma mistura de trágico com risível.
Era de facto alguma coisa…
Olha, passou outra vez.

Que bom. Desculpa, caí no ridículo…
Estava a tentar discernir o algo que exalas.
(Lá está ele outra vez! Que penso eu?
Pára! Diz-lhe) Amo-te…
Perdoa, por vezes a força que insiste
é superior á que resiste.

(Problema de menor, basta ressalvar-me,
Algo impossível, devo acrescentar.)
Mas que euforia, parece que me ria…
Afinal não, apenas me via em ti,
Nos teus olhos, no teu rosto, no teu tu!
Perdoa-me não sei falar sobre o tabu!

Amu-tu? Será? Será que transformando,
Posso ir dissimulando o que tento, refutando,
Esconder, enquanto ando (para de rimar com “ndo”)
Para aqui e para acolá?
Pois… não fará muito sentido, mas será que… repetindo?
Amu-tu? Ouves então desta feita? (…)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Não penses, faz!





Estava a pensar no outro dia e percebi… hei, tu tens o dom de pensar, reflectir, tu consegues parar para pensar em ti, nos teus problemas e projectos de conquista.
“Estúpido!”, disse eu… Sempre soube que o segredo para um boa e feliz vida era estar calado naqueles momentos de silêncio em que tenho de me deparar comigo!
É exactamente nesse momento, aquele que vai desde a reflexão até á tomada de decisão que um tipo como eu tem de ficar quieto, calado e se possível, morto para ele mesmo!
Esta coisa do livre arbítrio, tramou-nos bem o filho… pois, ninguém sabe muito bem de quem ele é filho, mas que nos tramou, isso é verdade!
Não seríamos todos nós muito bem mais felizes se tudo o que fizéssemos não tivesse explicação? Se tudo o que fizéssemos estivesse apenas a cargo da nossa vontade no momento? E se não houvesse remorso e REFLEXÃO? Raios mais a reflexão e o pensamento… Estão todos errados, ouviram? Vocês, “mestres do pensamento” o tanas ()! Raio de gregos, não sabiam estar quietinhos a possuir-se uns aos outros e a macacos e a meninos jovens? Tinham de vir arruinar a nossa vida, estudando e reflectindo sobre o pensamento humano e seus derivados! E se fossem ver se chove? Se escrevessem sobre como “o ver se chove” pode aumentar o tamanho da nossa resistência ás provações é que o faziam bonito! Raio de anormais! Com aquelas togas armados em sábios… Nem se aperceberam, eles não faziam ideia… O segredo para a democracia é o desconhecimento e os gajos arruinaram com o segredo da coisa que, supostamente, mais gostavam!
Toda a gente sabe que quem é burro, pensa que é livre, ou seja, quem não sabe tem o poder… Não vêm o Bush? Ora bolas, o homem não pensa e isso fá-lo feliz! Só um gajo inteligente é que não vê isso…
Por amor de Deus, anda aí toda a gente com o:

-libertem o Tibete,
- libertem isto,
-libertem aquilo

Para mim a palavra de ordem é:

-aprisionem o pensamento,
-estagnem com a reflexão,
-ofereçam um grande enxerto de porrada a quem pense, que pensa!

Como o mundo seria melhor se fôssemos todos cordeirinhos… Sempre juntinhos e a apreciar a vida sem a degustar ou esmiuçar…

terça-feira, 25 de março de 2008

"Sem Rede" Tertulia Castelense 17 & 24 de Abril





… Não o estou a ouvir… deve ser da rede… estou onde o judas perdeu as botas… se é longe? Mais ou menos, Bomilhelho, conhece? ... Não estou a ouvir, pode repetir?! Volto a ligar mais tarde. (mais tarde) Ouve-me agora? … estou? Consegue ouvir-me?... mal?! Onde está?... Centro de Gaia? Não, não conheço… aquilo é só uma avenida… liga-me depois? (depois) Estou? Agora não posso falar, desculpe… quando puder mando-lhe mensagem. (quando ele pôde) SMS- “Não sei quem o senhor é, mas agradecia que parasse de me ligar!”
Este e outros problemas destes, Abril, Tertúlia, tu, eu, eles, O TELEMÓVEL EM SILÊNCIO!

Duração do espectáculo:
45 minutos
Textos:
Ricardo Leite
Interpretação:
Ricardo Leite

segunda-feira, 10 de março de 2008

Reinventado.




Nessa manhã, apetecia-me espairecer, sim, apetecia-me soltar-me e ir… só ir, assim, sem mais nem porquê, partir…
Fui então! Seguido por dois tristes cães, aí fui eu. O rosto esboçava aventura a cada gota de orvalho matutino que escorria sobre ele. Os pássaros, ainda não tinham parado de voar desde o momento em que se tinham posto em busca de alimento. As pessoas, essas, cada uma delas que me cumprimentava com aquele olhar de quem julga, mesmo com o olho remelado e ainda meio fechado da desordem e da anarquia da noite passada, me dava mais força para partir.
Algo tinha deixado marcas profundas na noite passada, algo me teria marcado para eu me sentir assim, observado e sempre sujo aos olhos dos outros. Percebi que a minha memória me ia escapando por entre os pensamentos que ia lembrando. Os cães lá continuavam, atrás de mim, sempre não mais que dois passos, atrás de mim. Eles pareciam lembrar-se do motivo que me levara até ali, eles pareciam saber o que me fazia partir…
Fui caminhando, entrei em vielas, subi ladeiras, entrei por sítios que pareciam alegra-se ao ver que não tinham sido esquecidos. Os lugares acolhiam-me, ao contrário das pessoas. Com eles estava em paz e eles comigo aprazavam-se e quase inalavam um fulgor meu, fulgor que os permitia a permanecerem esquecidos mais alguns momentos, apenas até ao tempo em que novamente eu os visitasse. Foi assim, fui seguindo, tentei recordar todos os sítios de que eles se encontravam vivos, já que a mim, nada me lembrava nada e me sentia só e findo! Recordo agora que algo que me seguia de bem perto tinha ficado para trás, apercebi-me nesse momento que estava verdadeiramente sozinho.
A primeira pausa teria então chegado. Não sei quanto tempo andei, ou sequer a distância, nem mesmo dos atalhos e caminhos entrecortados por onde teria passado me recordava. Lembro-me de ter dois vultos a seguir-me, mas já não estavam lá, algo que me perseguia ter-se-ia ido embora. Não me lembrava já das horas a que teria começado a andar, ou a razão pela qual me tinha posto a caminho de nenhures…
Sei que uma sensação de solidão se abateu por tudo aquilo que eu era naquele momento, senti-me só, exonerado por um mundo do qual não tinha nenhuma lembrança, renegado por algo que nem sabia o que era.
De repente os vultos pareciam voltar e abeiravam-se cada vez mais de mim, dois cães, rezingões mas amistosos, pachorrentos e extremamente preocupados. Só quando os chamei e eles se puderam chegar a mim é que senti a calma dos seus olhos ao ver que comigo estava tudo bem. Parecia-me que eles me conheciam, pareceu-me que eles tinham visto um eu que eu, ou não lembrava, ou que queria a todo o custo esquecer.
A noite já teria chegado, tinha-se sentado a meu lado e tinha começado a falar comigo. Toda a sua escuridão permitia-me a ficar em paz, naquele breu onde não mais que quatro olhos se vislumbravam, deitei-me e dormi… dormi só! Apenas o sono me acalmou, lembro-me apenas disso! Lembro-me que aquele momento pareceu um segundo, lembro-me que pareceu apenas um abrir e fechar de olhos extenuados por todo aquele cansaço de tentar lembrar!
Era manhã, uma manhã cansada, uma manhã que ainda se apoiava na noite, via-se ainda a noite ali, prestes a levantar-se do lugar onde se teria sentado a meu lado momentos antes. Parecia-me que ela não se queria embora, pelo menos eu não queria que ela fosse, queria-a ali, a meu lado. A noite protegia-me!
Ela partiu, lembrei-me que algo teria também partido na minha vida para que eu ali estivesse, sozinho, no “algum lugar que ninguém quer conhecer” naquela condição estranha de quem está só por mote próprio. Erra quem pensa que eu estava triste, erra sempre quem me julga, ou pelo menos errava. Já não sentia um “julgamento” faz tempo… a barba ter-me-ia crescido naquele compasso de espera entre o momento em que teria partido e no momento em que me teria apercebido que partira… não tinha sido uma noite, foram várias, várias noites que umas ás outras, sempre tentando proteger-me, se revezavam permitindo-me á paz de parar um segundo para esquecer-me da vontade de lembrar!
Os cães, rio-me sempre que os penso ali a meu lado, o que a mente nos obriga para que nos sintamos menos histriónicos na nossa desenfreada vontade de sofrer dia após dia. Eles nunca teriam existido não fosse a minha propensão á imaginação e á vontade de os não deixar esquecidos…
Pouco e pouco as coisas foram tomando seu lugar, o sol foi para seu posto, as nuvens permitiram-lhe ver-me todo esse dia, sei que nenhuma ousou sequer impedi-lo de me observar, parecia-me que o sol queria fazer-me frente, forçando-me a paragem durante o dia, para que eu estivesse susceptível ao julgamento de outrem que por ali, pelos meus caminhos, se fosse perdendo também.
Os cães teriam já desistido de me acompanhar faz tempo, estava cansado de os alimentar com o meu ar calmo de quem sabe, exactamente, o que está a fazer.
Eu desisti de tudo… Apercebi-me nesse segundo, naquele minuto em que a noite acordava já para se vir sentar a meu lado, tentando proteger-me mais uma noite, que não precisava de protecção, pelo menos não daquele tipo. Não queria mais proteger-me esquecendo, queria fortalecer-me lembrando, lembrar é sempre o melhor remédio, “lembrar e construir é sempre o melhor remédio”, recordava eu a mim próprio.
Não sei como, mas tinha sufocado o meu próprio ímpeto á imaginação e isso não poderia nunca ter acontecido! Tinha de voltar, aliás, tinha de me lembrar do sitio de onde parti, para que a ele voltasse…

Foi esse o meu desafio naquela manhã, naquela manhã que agora lembro, naquela manhã onde parti… Eu teria partido para conseguir revitalizar-me e reinventar-me, eu teria partido, única e exclusivamente para voltar!
Não me esqueço nunca desta lição que me ensinei, desistir, só os fortes conseguem, só eles conseguem ter a força suficiente para não voltarem atrás na decisão e permanecerem na desistência, o fraco, esse acaba sempre por voltar a tentar. O fraco, volta sempre atrás pois fraqueja na ambição de se despojar do que a tanto custo construiu… Percebi que sou fraco e que por isso tento sempre!

domingo, 2 de março de 2008

FARTO!!!!





Farto, estava farto. Tinha entrado no meu gabinete, mais um bilhete… todos os dias a mesma coisa, sempre aquele bilhete! A bem dizer, não era sempre aquele bilhete, eram múltiplos bilhetes, mas que diziam sempre o mesmo:
- “volto mais tarde”

Sempre mais tarde, nunca um pouco antes, nunca, um pouco depois da hora, nunca, a horas, sempre diziam, “volto mais tarde”.
Mas como especificar o mais tarde? Como saber qual o mais tarde e melhor, porque é que vem mais tarde?
Muitas duvidas, farto, sinto que estou farto, sempre as mesmas duvidas, sempre as mesmas questões…
Um dia não li o bilhete, pensei que dizia a mesma coisa, pensei que mais tarde voltaria, mas não, desta vez tudo seria diferente… os bilhetes pararam, no dia seguinte não havia lá nada, nenhum bilhete, nenhum aviso, nenhuma ressalva… apenas o vazio.
Assim me sentia eu, vazio, preferia um, mais tarde, que um … nada! Sempre me conseguia virar com o mais tarde, mas agora com o nada tornara-se complexo.
Foi só alguns meses mais tarde que percebi a razão pela qual o homem do talho deixou de me deixar o bilhete a dizer que voltava mais tarde, tinha-se acabado a carne e agora ele era agente imobiliário…

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Mas e o Malaquias?



Outro dia se passou… e outro, outro ainda. Os dias passaram, Malaquias agora, já afoito e com desejo, questiona-se:
- Ora, tu queres ver que este caralho… ai… será?
Sempre no seu estilo muito próprio de pedagogo de “pé de chinela”, ele questiona-se. É verdade, toda a gente percebeu, toda a gente entendeu onde ele queria chegar, a sua mensagem ter-se-ia espalhado, teria até chegado aos ouvidos de certo funcionário de um patrão que por sua vez se intrigara com o cariz revolucionário da pergunta. Esse empregado, impregnado pela mística que toda a revolução traz, decide inquirir o patronato:
- Tão, oh chefe, você “tá” a ver isto?
O patrão, homem acostumado á pressão resultante de uma luta de classes, apressa-se a acalmar o seu fiel funcionário, que ainda três dias antes lhe tinha ofertado um cigarro, ali… ali no terraço do escritório, onde o frio aperta e só os “comensais” aquecidos já pela experiência de outros voos se reúnem.
- Ó Zacarias, tem lá calma, não venhas tu também para aqui com um socialismo delicado, muito próprio daqueles que por mais de duas vezes se venderam já, ao mercantilismo Leste Europeu que nada trás, senão grandes carradas de guronsan na manhã seguinte.

Foi aí, nesse momento que vai do choro ao soco que Zacarias, o operário do povo responde:
- Ai é assim? Então caralho, deixe para lá, eu depois falo com a sua mulher (senhora acostumada a determinados moldes de conversa que o patrão de Zacarias não poderia ofertar-lhe)
Tudo acalmou, ficou tudo com uma calma tão grande, que mesmo estando do outro lado do prédio, só se conseguia ouvir a conversa entre Zacarias e a mulher do patrão, uma conversa quase toda ela composta por interjeições.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Marcelo, o homem com umas cenas…




Hei, tava aqui a pensar… sim, tou a falar contigo, tava aqui a pensar… Porque é que me interrompes? … … … Ok, deixa para lá! … Não, agora não te digo! … Bolas, sempre a mesma coisa, estás sempre com esse tipo de discurso… Não, não estou a dizer, outra vez, que gostas de me ver em baixo, não é isso! … É que, a sério, tenho pensado muito sobre isto e … Mas porque é que não queres que eu te diga? … Eu? … Achas mesmo que eu ia ficar assim? Pensas mesmo que eu sou esse tipo de gajo? … … É bom saber que me conheces bem! … Não, a sério, seria incapaz de te dizer isso, fosse em que circunstância fosse! … Já agora diz que eu sou teimoso também, assim já fico mais contente com as características que vês em mim! … Não, agora sou eu! … Deixas-me falar? … A sério, deixas-me terminar uma frase pelo menos?... Para! Eu não te quero chatear, mas quero ao menos que me ouças. … Não me acredito que me chamaste isso! Eu, a pessoa que sempre te deu espaço, a pessoa que sempre pensou em ti e que por ti sempre fez tudo! Bolas! A sério, bolas! … Claro que eu estou chateado, não é obvia a razão? … Ah, não percebes? … Não percebes mesmo? … Estás a falar a sério? … Pois, eu devo estar outra vez com as minhas cenas, não é? … Pois, desculpa. … Mas eu também já te tinha dito para me interromperes quando eu começasse com as minhas cenas! … A sério! E pensar que eu confiei em ti! … … … … … … … … … … …

domingo, 17 de fevereiro de 2008

As folias de Malaquias


Certo dia Malaquias saiu á rua e pensou:
-Fodace!

Não foi o seu raciocínio mais elaborado, não foi uma das melhores palavras que já proferira, por exemplo, certo dia malquias havia dito “sub-repticiamente, vou andar com isto para a frente”, algo muito mais elaborado, chegando a ter contornos filosóficos.
No entanto nesse dia algo estava diferente, ele disse:
-Fodace!
Se calhar estava farto. De quê? Sabe-se lá, provavelmente estaria farto daquilo que lhe exigiam, das coisas que fazia e se calhar das pessoas que o obrigavam a faze-lo. Algo o teria afectado nesse mesmo dia de sobremaneira por forma a ele se encontrar naquele estado. Tentou reflectir sobre o assunto…
A nenhuma conclusão chegara ao fim de duas horas… Pensou:
-Fodace, fodasse pa esta merda… que caralho!
Hum, intriga-se neste momento o leitor sobre qual o conteúdo secreto desta mensagem, intriga-se também pela razão que levou Malaquias a proferir tais vernáculos de forma tão nua e avassaladoramente “fácil”.
Bem, a verdade é que algo tinha mudado na mente de Malaquias, ele já não mais pensava na vida, ele viva-a! Daí a sua nova definição para mundo:
-Fodace!